“Empatia…”

Era Dezembro, estava um frio tremendo, daquele frio que aqui no Alentejo, corta, daquele que parece um punhal a rasgar a carne. Eu, como sempre, entrei no café para o meu vicio, aquele cafezinho que me dá alento, que me estabiliza. Como sempre cumprimentei todos os que enchiam o café e confesso lhe davam um ambiente bem agradável, quente e já com aquele cheiro a Natal, de risos e gargalhadas, de boa disposição de quantos como eu se preparavam para mais um dia de trabalho, levando daquele espaço um reforço energético e anímico pela troca habitual de cumprimentos e sorrisos. Ao canto, como sempre lá estava “aquele”, de quem nem sabia o nome, mas confesso que não simpatizava nada com ele, sempre com um ar distante e importante, sempre entrei no café e ele sempre lá estava, não sei, é daquelas coisas que acho que nos acontecem a todos, embirrava com ele e apesar de nunca me ter feito mal e confesso, nunca troquei uma palavra sequer com ele, não conhecia nada da sua vida, nem sabia sequer o que fazia, mas não gostava, aquela coisa da primeira vista e também se dizia muita coisa sobre ele, mas também acho que todos teriam a mesma opinião que eu:” – Não o conheço muito bem, mas não gosto, não interessa a ninguém, é um parvo qualquer!”. Fazia-se tarde para a minha hora de entrada,  como sempre entre sorrisos, palmadas nas costas e votos de bons dias lá me despedi dos meus companheiros, dos meus amigos de café e parti. Era uma manhã de frio como já disse, havia um nevoeiro cerrado e na segunda curva, ainda hoje não sei como, despistei-me, o carro deu uma série de voltas e acabou por cair numa valeta, eu,  embora só tivesse partido uma perna, fiquei  preso no banco retorcido e não me consegui soltar de maneira nenhuma. Começaram a passar carros e o meu, embora na valeta, estava bem visível para quantos por ali passavam, comecei a perceber que os meus habituais grandes amigos do café passavam e mesmo abrandando, não paravam, sei que conheciam perfeitamente o meu carro. Sei hoje igualmente, porque alguns me confessaram: “- desculpa, não parei porque já ia atrasado para o trabalho e se chego tarde, sabes como é? O patrão…!”. Bom, mas de regresso à história. Quando já começava a acreditar que as coisas estavam complicadas uma vez que estava a perder muito sangue e estava de facto a perder os sentidos, reparei que alguém parara e se dirigia a mim. Mais não me recordo, recordo apenas o facto de acordar já no hospital e de me terem dito que se não fosse o meu amigo Manuel eu teria morrido esvaído em sangue. Estive dois meses internado e para além da minha mãe e família mais directa, ninguém apareceu no hospital , excepção feita aquele 25 de Dezembro, eram umas 23 horas e no hospital aqueles que se encontravam de serviço, que eu conseguia ouvir através do silencio que enchia todo aquele corredor, trocavam entre si lembranças e desejos de umas santas festas. Sem que desse conta disso, de repente dei  por alguém junto a mim, e para minha surpresa, era “aquele” com que não simpatizava nada, “aquele” que estava sempre ao canto do café, de quem falavam muito, de quem também eu não gostava apesar de nem sequer o conhecer ou saber o seu nome. Para meu espanto estendeu-me a mão, e desejou-me um bom natal. Antes que saísse do quarto perguntei-lhe: quem era, como se chamava e porque tinha ido ali? Respondeu-me com a mais fria das respostas que alguma vez ouvi: “ – Sou um homem igual a ti, o mundo chama-me Manuel, e passo a vida tristemente, a morrer de inveja de homens como tu, que, quando bem de saúde e cheios de importância, são diariamente abraçados e festejados, mas que na primeira má volta que a vida dá, lá ficam na valeta à espera que possa aparecer o homem da mesa do canto do café, que ninguém conhece ou cumprimenta, que apenas ali está à espera que alguém se despiste na segunda curva e precise de uma mão amiga para se levantar…”    

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