“Os olhos do homem grande…”

Sempre tive fé. Sempre encontrei na minha vida Cristo. Aquele que se deu por nós na cruz, aquele que sempre me disseram ser bom e amigo. Mas também muitas vezes o tenho perdido, ou talvez seja mais correcto afirmar, que não o encontro. Não o encontro em mim, não o encontro na rua, nas casas, nos outros e tenho que confessar que muito menos o encontro ou percebo, quando vejo sofrimento. Lembro-me de ser pequenino, de chegar à cama e junto do meu Deus pequenino, ir rezar. Dormia descansadamente, como se a Lua, que entrava pela janela, me dissesse: dorme descansado meu pequenino”. Mas um dia, um dia, comecei a duvidar de tudo, lembro-me quando morreu o meu amigo Quim-Zé, tão pequenino e eu todas as noites quando as minhas mãos procuravam Deus para se juntar, perguntava à lua que já não iluminava tanto o chão do meu quarto: “- Ó lua tu que estás tão perto do meu Menino Jesus, pergunta-lhe lá porque é que levou o meu amigo?”. Fui crescendo e para além do Quim-Zé outros amigos perdi, outros que me faziam tanta falta também partiram, aquela luz da lua que enquanto criança achava tão bonita, era agora bem mais cinzenta, bem mais triste. Comecei a duvidar, a perguntar, a não entender.”- Então se temos um Deus justo e bom, porque nos leva Ele aqueles de quem gostamos, porque nos provoca e deixa sofrer?”. Anos tive de grande duvida. Fui deixando as minhas preces e mesmo quando as minhas mãos reclamavam um encontro com Deus, eu afastava-as, sabia que as duvidas que outrora tivera, eram agora uma certeza, Deus não existia, nem era bom. Vi tantos meninos partir, vi tantas mães chorar. Passei a ver o Mundo com os olhos do homem grande. O Homem da guerra, do sofrimento, das lutas, do ódio, da inveja e maldade. Um dia parei e comecei a olhar para mim,  reparei que afinal eu também já era um homem grande, que já não juntava as mãos apenas por ter duvidas, mas por ter tantas certezas, por agora achar que afinal a Lua que dantes me vinha visitar, não vinha para sonhar comigo aqueles sonhos bons. Vinha porque tinha que vir, porque o Mundo rodava e ela é claro, tinha que aparecer. Deixei de achar graça a tudo, deixei mesmo de achar graça a mim, até ao dia em que Deus me levou outro amigo, este de bem mais perto, este com um coração que pulsava o mesmo sangue que me corre nas veias e voltei a encontrar-me com Deus, curiosamente com o mesmo Deus pequenino que dantes tinha ao pé da cama e para meu tormento, comecei a perceber que afinal, tinha sido eu que me tinha afastado D`ele, afinal Ele sempre ali estivera e que foram os olhos do homem grande, que comecei a utilizar, que me fizeram tornar cinzenta e fosca a minha brilhante Lua. Ontem voltei a juntar as mãos e para meu espanto Deus ainda lá estava, quis-lhe perguntar tanta coisa, mas de tão cansado adormeci, ainda tive tempo para perceber que a minha lua estava tão bonita como dantes. Hoje quero ver se me deito mais cedo e menos cansado, para ver se consigo perguntar ao meus Deus pequenino: “ – Como estão os meus amigos?, todos aqueles que já partiram e tenho a certeza, como eram tão bons, estarão  seguramente com o Deus grande lá no céu…”.

para mensagem : josegoncalez@sapo.pt

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1 Comentário

  1. Amigo Ze,tambem já tive momentos em que estive zangado com Cristo,nomeadamente quando a minha mae faleceu(faleceu com 44 anos)depois pensei conforme a mensagem deste belo texto A MINHA MAE FOI LEVADA PARA FICAR PERTO DE CRISTO
    Um grande abraço Jose Marcelino


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