“Amor…?”

“- Hoje, estou a chegar ao fim, sinto que não serei capaz de vencer mais este dia. Já lá vão 92 anos  desde que a minha mãe me pariu, claro que não vi, mas, contaram-me que foi um dia de alegria imensa, a sala abarrotava à espera que a parteira trouxesse a novidade, é menino, é menina? “ – A espera foi longa mas valeu a pena”, foi assim que o meu Pai respondeu à informação de que havia nascido um menino, Eu. “- Está decidido, chamar-se-á José, como o de Nazaré, assim terá que fazer jus ao nome, ser sério e bom.” E tocou-me de facto, ser este piegas que hoje vos fala e despede de vós, tentei ser sério, nem sempre consegui e bom também. Amei de tantas formas, tive o mais profundo dos amores por minha Mãe, até porque fiquei sem Pai muito novo. A nossa Mãe, Essa, que nos ama a qualquer preço, a qualquer custo, Essa que finge não entender as nossas mentiras e problemas, Essa que não dorme ou descansa, porque saímos e ainda não chegamos, Essa que tem sempre na mesa o prato à espera p`ra refeição que mais ninguém nos quis dar, Essa a quem não entendemos tantas vezes, porque nos ama sem condição, porque o seu Amor, não é para entender, acho que foi o único Amor de verdade que conheci. A minha Mulher, a quem amei tanto, partiu há uns anos, custou-me bastante, sobretudo pela companhia, pela cumplicidade por me ter dado os nossos filhos, é um amor diferente, de entendimentos, de desentendimentos, de pactos de verdades e mentiras, que bom seria que fosse sempre de confiança. Os meus filhos, só percebi o verdadeiro sentido da palavra amar, quando nasceram e finalmente percebi o tal amor da minha Mãe, que pena já ter morrido, quando os meus filhos nasceram para lhe poder agradecer. Os meus amigos, amei alguns verdadeiramente, com um amor preocupado e desinteressado, ou não, não sei. Será que conseguimos, amar verdadeiramente sem interesses, não sei. Mas tenho que confessar de que de alguns gostei verdadeiramente e lhes dei o amor que me parecia correcto e ajustado. Animais, como amei os meus animais, nem queiram saber, esses tenho a certeza que me adoravam e por mais incorrecto que fosse com eles, lá estavam de rabinho abanando à minha espera ,tudo me perdoaram,  que bom, que saudades. Tantos Amores, tanto Amor, tudo numa só palavra, com emoções e significados tão diferentes. Vou Partir, hoje aqui, só comigo. Parto tão longe do José imaginado pelo meu Pai. Vai tão pouco de mim para a terra, não levo todo aquele Amor da minha Mãe, porque nunca o compreendi na sua plenitude. Não levo todo o Amor do casamento porque estivemos tão longe de ser perfeitos. Não levo o Amor dos meus amigos, porque nunca o fui verdadeiramente. Não levo o Amor dos animais, por que nós humanos estamos tão longe do Amor deles. Vou assim, só comigo, por só agora ter percebido que estive tão longe de todos estes amores. Se calhar alguns amanhã irão no funeral, porque se envergonham de não ir e lá irão dizendo coitado foi tão bom rapaz e eu, se tivesse oportunidade de lhes responder diria: Calem-se, porque amanhã, vocês também partirão e sentir-se-ão assim como eu, uma merda. Ao menos façam silencio…”

 

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1 Comentário

  1. Fantastico….


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