“O espelho…”

Como sempre e por ser domingo, saí para o meu passeio semanal, na rua, senti que alguém calmamente se aproximava de mim, parei e perguntei ao homem porque me seguia, para meu espanto, perguntou-me se tinha um bocadinho de espelho que lhe desse e sem me dar tempo para qualquer resposta, começou: “- Ali estava eu, em frente ao espelho. Não. Não para perguntar ao espelho se existia alguém no mundo, mais bonito do que eu. Não, até porque para ser franco, isso para mim nunca importou, não me acho feio ou bonito. Acho-me assim, como sou, há mais bonitos e mais feios. Tenho que confessar, que houve vezes em que me demorava ao espelho, não à procura de encontrar o rosto mais belo, com mais ou menos rugas, ou à procura dos cabelos brancos que mais cedo ou mais tarde, chegariam. Apenas procurava o espelho, para perceber se ainda era Eu, se aquela imagem que ali se reflectia, ainda morava em mim, ou melhor, se ainda morava e me encontrava na imagem que o espelho me devolvia. Confesso que nem sempre me encontrava, que muitas vezes não gostava. Não encontrava muitas vezes, o brilho que a minha mãe me prometeu ao nascer, não que alguém me o tivesse roubado, não, fui eu que o perdi. Perdi-o, no ódio que ás vezes deixei derramar, perdi-o nas acções injustas que não consegui conter, perdi-o no silencio que me era exigido e não soube fazer, perdi-o na embriagues de querer o que não me foi prometido, perdi-o, nas ruas, nos caminhos que não devia ter trilhado. Encontrava igualmente no espelho, um olhar carregado, uma mágoa sentida, uma profunda tristeza. O meu rosto? Aprendeu comigo a fingir bem, a disfarçar rugas, aquelas que lhe dei no devorar dos dias, na cegueira assumida p`ra fazer caminho, na mão estendida em falsos apertos, nos beijos tão cheios de falsas verdades, na raiva servida em cristal de lata. Não, não me digam que não sou este que o espelho me dá, mas,  garanto-vos que já fui tão bonito, num sorriso feliz, de brilho intenso, de esperança ilimitada de alegria imensa. Sim, agora sou este, que nada tem a ver com o que era antes, acreditem, se hoje vos pareço bem é porque só me conhecem agora, hoje apenas me acham graça os que não me conheceram outrora. O espelho, esse, nunca me enganou, apenas porque nunca se deixou enganar, já me esbofeteou, já me gritou, já me obrigou a chorar quando lhe quis vender risos. Há muito tempo que lhe fujo, tenho medo da verdade que possa revelar, há muito que apenas me vejo sem olhos de olhar, há muito que não me consigo encontrar, a sensação que guardo da ultima vez que me fitei de frente, foi tão estranha, não era nítida, fiquei com a sensação que o espelho se havia quebrado em mil pedaços. Ainda assim, um dia vou ganhar coragem e vou ver de mim, já comecei a restituir os pedaços ao espelho e todos os dias peço a deus, que me devolva os pedaços que fui perdendo pelos caminhos, duvido que alguma vez o reconstrua de todo, mas não hei-de partir sem, nem que seja num só bocadinho de espelho, me voltar a gostar de ver…”

Não sei quem era o homem e não mais o vi, mas hoje sou eu que ando p`la rua à procura dos pedaços do meu espelho… 

deixe mensagem em josegoncalez@sapo.pt

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