“A cruz…”

Eram duas da manhã, não sei mas,  não tinha sono, como era verão decidi ir dar um passeio, sempre vivi aqui, à beira mar e estas noites de verão, são muitas vezes o linimento para as minhas duvidas e preocupações. Sinto que aquela Lua a beijar águas, me traz o sabor da Paz, sinto que aquele beijo me conforta, sinto assim, como se fosse Deus a acarinhar-me, mas, naquela noite, não. Estava triste, sentia-me demasiado perdido, as minhas duvidas eram demasiadas e nem a minha companheira Lua me trazia a Paz de outras horas. Sentei-me a olhar a Lua e desatei a chorar, sem dar conta disso, comecei a gritar e a dizer à Lua que estava farto de viver, que não entendia porque me tinha dado Deus uma cruz tão pesada, porque a minha vida era um turbilhão de problemas, porque não me aliviava Deus o peso da Cruz. Chorei tanto, que os meus olhos se inundaram de cegueira e, quando dei por mim, apercebi-me que alguém se aproximava, um velho, tão curvado que os seus braços quase chegavam ao chão, não resisti aquela visão e perguntei:“- Mas porque caminha tão curvado? Porque não tira esses olhos da areia? Acabou por parar e respondeu-me assim:“– Esta minha inclinação, deve-se ao peso da cruz que trago ao pescoço.” Voltei a perguntar:“- Mas que cruz? Não lhe vejo cruz nenhuma.” Chegou-se mais perto de mim, sentou-se e disse-me: “ – Pois não, nem tu nem ninguém, e a tua vê-se? Então não é verdadeira. A minha, esta que tu não vês, é  enorme e demasiadamente pesada para que tu a possas ver. Deus deu-ma há  muitos anos, nunca mais a tirei e nunca me revoltei por me a ter dado, e se é esta e deste peso é porque Deus entendeu que eu a conseguiria suportar. O peso material?, esse, não conta, não me importo nada que o meu corpo se tenha curvado, não me preocupa que: os meus ossos, os meus tecidos, os meus músculos, já possam ter cedido um pouco, mas, podes crer, que o meu espírito esse continua erecto. Olha diz-me o seguinte, se eu te desenhase quatro cruzes na areia de vários tamanhos, qual escolherias? Respondi sem hesitar:”- A mais pequena.” De pronto continuou:”-Pois escolhias exactamente a tua é essa a cruz que transportas, todas as outras pertecem a outros. Tu, se ainda caminhas direito,  é porque a tua cruz é levezinha e no dia em que o teu corpo começar a ceder, lembra-te que, se só agora te começaste a curvar é porque só agora a tua cruz começou a ter algum peso.” Levantou-se e, lentamente afastou-se, reparei que na areia apenas ficava uma marca, um arrastar, um risco grosso. Levantei-me  e tentei seguir o risco da areia mas, curiosamente, desapareceu, ali, onde a lua se encontrava com o Mar…” 

deixe mensagem em: josegoncalez@sapo.pt  

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