“Alguem perdeu o coração?”

“Alguém perdeu o coração? É que hoje achei um, quem diria. Ali caído, na beirinha da estrada. Ainda batia um bocadinho, mas pouco. Muito pouco. Acerquei-me, para me certificar bem , que era um coração humano. Sem duvida. Mas que coração estranho, de um vermelho descolorido, sem ritmo, completamente descompassado. Pareceu-me ser um coração triste, amargurado. Um coração de quem perdeu a esperança, mutilado e mesmo o pouco sangue que nele pulsava, não cheirava a sangue, talvez a um liquido, viscoso, incaracterístico e demasiado liquidificado, de um branco tinto visceral. Procurei, as artérias, na entrada demasiado abertas, na saída demasiado fechadas. Tinha aspecto doentio, de dor e sofrimento. Estava cheio de golpes, dilacerado, com profundos buracos. Todo amarrotado. Um coração, vazio, sem amor. Frio, de um frio cortante, quase gelo. Ainda assim continuava a bater, continuava a`creditar. Perdia sangue e ritmo, mas resistia. Peguei-lhe, cabia todo na minha mão, estava cada vez mais frio, quase gelado. Começava a dar sinais de desistência. Que estranha sensação, até parecia que o conhecia de algum lado. Tive pena, encostei-o ao peito, abracei-o, tentei dar-lhe algum calor. Virei-me para o sol e curioso, adormeci. Quando acordei, tinha desaparecido. Não sei se alguém me o roubou enquanto dormia. Não o encontro, não sei, talvez se tenha ido embora de vez. Não sei de onde veio, nem para onde foi. Só sei que quando acordei, ele já lá não estava e ainda não consigo entender porque estava a minha mão encostada ao peito, mesmo no sitio do meu coração?”

“Por entre velas…”

“É meia-noite, espero por um dos meus maiores amigos, ligou-me hoje a pedir para conversarmos. Está a chegar.” ” – Então, pareceste-me tão desesperado hoje à tarde, o que se passa? “ – Não sei, só sei que a minha vida está um caos, não existe mais, que trevas, perdi as forças, não existe caminho, por onde possa ir.”“ – Deixa-me desafiar-te, para uma viagem, durante trinta dias, pelas trevas onde dizes viver. Acredita em mim, nem precisas de abrir os olhos, confia. Dá-me a mão, vamos pôr uma venda nos teus olhos. Onde quiseres, poremos uma pequena vela. Não tenhas medo de pôr velas, põe quantas quiseres. Comprei uma caixa bem grande, tem centenas. Vamos?, “ – Vamos”. “ – Bom, meu caro amigo, já se passaram os trinta dias. Vamos tirar a venda e olhar para trás”. “ – Mas que caminho maravilhoso e quanta luz!”, “ – Vês, este caminho, foi todo feito por ti, pelos trilhos que decidiste. Subimos, descemos, andamos de noite, de dia. Tudo feito sobre a tua orientação. Diz-me, ainda pensas que não consegues? Ainda julgas não ser capaz de sair das trevas e caminhar? “ – Talvez, tudo o que fiz foi por ires comigo”, “ – Enganaste, deixei-te naquela primeira curva, quanto te pus o saco das velas às costas e te disse para, a partir dali, não mais falares comigo. Para acenderes tu as velas e as colocares no chão. Desde esse momento, que não estou contigo. Tudo o que fizeste, fizeste-lo sozinho, apenas porque acreditaste que eu estava ali, ao pé de ti, mas não, acompanhei-te à distancia, vi que tropeçaste algumas vezes. Vi que caíste, tropeçaste e bateste com a cabeça outras vezes. Sempre te levantaste e continuaste, porque tínhamos combinado, fazer a viagem em silencio, sem palavras. Ainda te recordas onde puseste as velas? “ – Sim perfeitamente, em todos os lugares, onde me foi difícil passar, onde tropecei, onde caí, onde bati com a cabeça”. “ – Ainda bem que sabes, sabes o que te tem faltado na vida? Confiança, vai. Segue o teu caminho. Como sinalizaste os locais de maior dificuldade, é só seguires as luzes que acendeste. Nada te pode impedir de seguir rumo à felicidade, adquiriste confiança e conhecimento. Agora, só te falta viver as coisas boas, desvia-te dos locais das velas e estarás no caminho certo. Não de encontro às velas, elas estão lá, para te mostrar que por ali o caminho não é bom, estão iluminados os pontos de dificuldade, agora é só colocares uma passadeira, por entre as luzes, com confiança caminha, se voltares a encontrar alguma dificuldade, volta a colocar uma vela. Quando chegares ao fim da vida, acabarás por ver que grande caminho fizeste e, mesmo que as velas se tenham apagado, a passadeira, já mais se destruirá e o teu caminho, estará feito, verás que outros fizeram o mesmo, alguns cruzar-se-ão com o teu, uns estarão por cima, outros por baixo. Mas poderás sempre dizer, que aquele, foi o teu caminho e não deve haver maior desventura do que chegar ao fim da vida, sem caminho, ou, viver, utilizando o caminho dos outros…”

“O perfume, da palma da mão…”

“ Já não é a primeira vez, que recorro ás plantas, para ilustrar o meu pensamento e hoje, é a elas que volto. Há flores fabulosas, de todas as cores, umas, de ramos fortes, outras frágeis, muito frágeis. Todas, dão flores absolutamente extraordinárias. Muitas vezes, é mesmo das mais fracas que brotam as mais bonitas flores e apesar de aparentemente frágeis, suportam ventos e temporais, por serem frágeis, aceitam e suportam as agruras do tempo, moldam-se, contorcem-se, dobram-se, fecham-se e abrem-se, mas não se partem. Muitas delas, rodam sobre si na procura da luz do sol, da vida. Por aparentarem essa fragilidade, são muito apreciadas pelos predadores, é que são tenras, fáceis de consumir, sofrem o ataque das pragas, ás vezes, não fica mais do que o caule. Mas ainda assim resistem, quando já não servem para alimento, são abandonadas e surpreendentemente, passados uns dias, lá estão elas de novo, prontas para novos ataques. Nem se importam, sabem que irão resistir. Na maioria das vezes, é destas pequenas e frágeis flores, que os insectos se alimentam, sugam tudo, pois o seu alimento, é rico e saboroso e, apesar de muitas vezes consumidas até à ultima gota, no dia a seguir lá estarão, de novo a receber, com todo o seu esplendor, a abelha apenas interessada na sua doçura. Ainda que muitas vezes, aproveitadas e destruídas por cima, nunca desistem de crescer por dentro, nas suas raízes. As flores grandes e aparentemente fortes, na grande maioria das vezes, não resistem a grandes ventos e temporais, quebram, ao primeiro vento. São demasiado rijas e inflexíveis para suportarem os ataques da natureza. Os predadores, atacam-nas em grande força, pela sua aparência, mas, normalmente acabam por se afastar, ao perceberem que aquela ostentação, não passa de uma enganadora aparência, estas grandes e fortes flores, enganam bem, vestem-se de grandes pétalas, grandes folhas, mas quando procuradas, quando lhes tentam roubar o perfume e o sabor, tornam-se amargas. Não estão interessadas em partilhar nada, o que têm é seu e lá por dentro da terra, também não crescem muito, não abrem muito os braços, ainda assim não apareça algum bichinho à sua procura para se alimentar.A diferença, muitas vezes é que as flores que, se mostram grandes e fortes, mostram tudo o que têm por cima da terra, sempre a subir, assentes em raízes muito frágeis, iludem-nos com a sua aparência, ao invés, aquelas flores, que vão surgindo paulatinamente, aparentando grande fragilidade, são as mais fortes, apenas crescem para cima, um décimo do que crescem para dentro, gastam as suas energias, a criar grandes e fortes raízes e por mais que sejam atacadas, têm sempre, onde ninguém vê, um grande suporte de vida, que resistirá a todas as adversidades e para além disso tudo, ainda tem a capacidade de perfumar, tudo, mesmo tudo, até as mão de quem as aperta para as destruir…”  

“No canto da igreja…”

“ – Não sou grande apreciador da maioria dos programas da televisão em Portugal. Não me levem a mal mas, não consigo entender como a troco de, “Audiências”, se use e abuse das pessoas e quando mais desgraçadas, melhor, quanto mais chorarem, melhor, quanto mais revelarem da sua miserável vida, tanto melhor. De preferência com, violência. É muito bom, haver um marido que engana e bate na mulher, mãe, de preferência que o faça à frente dos filhos. É bom, mesmo muito bom que a casa esteja em péssimas condições, com buracos no tecto, para se poderem colocar uns baldes no meio da casa para filmar. Se houver então ratos, isso é que tem valor. Mas ainda assim a cena pode ser mais perfeita: Uma casa, nas condições atrás referidas e, na cama a avó ou o avô, que há muito não se levanta e que ninguém pode tratar. Para fechar este maravilhoso quadro, muitas vezes, até dos deficientes, há que tirar dividendos. Boa, boa é a família que para além de todas as dificuldades, ainda tem alguém com alguma deficiência, de preferência, que seja criança. Talvez esta seja uma forma brutal de pôr as coisas, mas, lamento, não deixa de ser verdade. Esta triste, Lusitana condição, daria seguramente, um quadro, que nem Malhoa retrataria melhor. Fome, desgraça, tristeza e mais umas quantas amarguras. Dão-se prémios de heróis, a alguns “apresentadores”, alguns deles excelentes em teatro, cheios de sorrisos de plástico, que caem, assim que as luzes e as câmaras se apagam. Muitos e porque quem os vê se ilude, nessa santidade televisiva, quando de facto, convidados para apoiar, em locais onde não haverá câmaras, nem luzes, nem repórteres, nem revistas, sabem como respondem?: “ -Falem com o meu agente”, ou então: “ – Nesse dia é de todo impossível, já tinha um compromisso” e ás vezes, bem mais grave: “ – Sim estou disponível, mas, têm que arranjar aí 500€ para despesas de deslocação”. Ainda assim, quero-vos dizer, que há de facto alguns muito bons. A minha revolta, não é de hoje, garanto-vos que tem muitos anos. Acho absolutamente inaceitável, que se usem as pessoas, apenas porque estas, vivem vidas perfeitamente miseráveis e naturalmente sujeitam-se a tudo. Não há maior vergonha do que, a troco de grandes audiências, se destruir o mais elementar dos direitos, o da dignidade. Colocar num ecrã, gente triste e desgraçadamente magoados, a chorar e quanto mais melhor. É absolutamente vergonhoso. Não. Não sou contra as campanhas de solidariedade, de forma nenhuma, sou é completamente contra que se use e abuse da desgraça dos outros para se tornarem beneméritos e vistam capas de santos. Ainda por cima, porque eles concretamente, nada dão, são meros intermediários. Se queriam ajudar, então, apresentem os problemas, façam campanhas sem mostrar as pessoas e quando lhes forem dar, o que os outros derem, não levem câmaras nem repórteres atrás. Uso para fechar, uma passagem bíblica, naturalmente fazendo uso, do sentido figurado, que a ela está subjacente. assim, apenas digo: ” – Ser bom e solidário não é acender luzes e ligar sirenes. Quando deres alguma coisa a alguém, apaga a luz, fá-lo ás escuras e vê se não há vento. Tal como Deus nos disse: ” – Quando quiseres falar comigo, não vás para o meio da praça, vai para o canto da igreja. É aí que me irás encontrar…”

“O vento que sopra pelas flores…”

“O vento que sopra pelas flores”. Esta expressão, não é minha, faz parte de uma história tibetana. Um dia, apliquei-a nuns versos que fiz para o meu irmão, quando foi internado pela ultima vez, antes de falecer. Tudo isto, porque também ele tinha cancro e claro, também eu, acreditava que “O Vento que sopra pelas flores”, o pudesse curar. Não como na história do homem do Tibete, ou que o meu irmão, precisasse de encher o seu corpo de perfume e de amor, para vencer o cancro. Não, porque isso, ele sempre teve. Mas sim, por acreditar que, “O vento que sopra pelas flores” é um vento rico em vida. Para além do perfume, transporta igualmente as sementes da vida e, eram essas sementes, que sempre esperei, que pudessem encontrasse nele, terra fértil, para a germinação. Aos versos, que fiz para o meu irmão, coloquei o titulo, “Na curva do caminho”, é verdade, foi ali, bem na curva do caminho, que foi apanhado, numa curva, que só agora começava a sua fase ascendente. Talvez, tivesse sido melhor, que este encontro se tivesse dado, no meio da casa. Numa casa cheia de janelas, abertas, por onde o vento pudesse passar e permitir que ele, conseguisse absorver tanto pólen, que não houvesse, linfoma que resistisse.  E nós, por onde andamos? Será que temos as nossas janelas viradas para os jardins, será que temos aos nossos parapeitos, canteiros de perfumadas flores. Será que temos essa coragem de, absorver “O vento que sopra pelas flores”, ou, apenas deixamos entrar e absorvemos o vento da estrumeira dos dias e fechamos janelas, não deixando sequer que, o ar das nossas casas, possa pedir boleia ao vento e nos revele em toda a nossa podridão. O vento, sopra indiscriminadamente, molda-se aos obstáculos, rouba odores, e entrega-se por onde passa, assim, sem dissimulações ou disfarces. Nós, bem tentamos, muitas vezes, usamos perfumes para tudo. Para a casa, para o corpo, para a vida. Mas, mais tarde ou mais cedo, o perfume desaparece e o vento, lá está na mesma, feito a denunciar-nos outra vez, sem apelo nem agravo. Também muitas vezes, somos nós que alimentamos o vento, com o veneno das nossas palavras, dizemos-lhe para não dizer quem tal perfume lhe deu. Apenas que vá e, faça o seu  trabalho, mas, ás vezes, esse vento encontra paredes intransponíveis, volta para trás, o mau cheiro, aí, torna-se insuportável, nauseabundo e mesmo que nos rodeie, fingimos não ser nosso. Que bom seria, que todos tivéssemos a coragem de construir um jardim e todos os dias, ao anoitecer, quando o sol viesse beijar a terra, nos colocássemos contra o vento a absorver todo aquele perfume e talvez, quem sabe, a pouco e pouco esse vento nos fosse limpando, dia após dia, até que de nós emanasse, apenas o perfume, “Do vento que sopra pelas flores…”

“Bem me quer, Mal me quer…”

“Até ao fim da vida, não irei mais portar-me mal. Talvez tenha sido a mais arrojada decisão que tomei, ainda mais, sabendo eu que, isso não é possível, mas também pensei que valeria a pena tentar. Se colocamos a nós próprios, ou deveríamos colocar, metas, objectivos, caminhos e tantas coisas mais, para podermos realizar os nossos sonhos, para podermos ser aquilo que sempre sonhamos, para termos tudo o que sempre pretendemos ter, então, não será igualmente licito, que, possamos lançar a nós mesmos um desafio desta natureza?. E afinal, é tão simples, não serão precisos grandes investimentos, é só isto. Não mais me portarei mal e pronto. Quero sair para a rua e dar cumprimentos, beijos, sorrisos, palavras aos que não tem com quem conversar e estes, garanto, são muitos e estão muitas vezes bem mais próximos do que aquilo que pensamos. Quero ir ao jardim, quero conseguir entender o que muda, desde aquele tempo dos baloiços, até ao tempo da solidão, do banco à sombra das árvores. Quero perceber, porque aquele menino dos baloiços que salta e pula e arranca as pétalas das flores, se torna mais tarde naquele velhinho, que acaricia, protege e bebe todo o perfume daquela mesma flor. Quero tudo, sem nada querer, apenas me quero tornar, bom. Como é possível, que, algo tão simples, seja tão difícil de alcançar. Então não é tão fácil, não falar dos outros, a não ser que seja para dizer bem. Então não é possível, deixar de olhar para o mundo, com aquela cegueira de quem tudo quer, sem me preocupar, como o conseguir. A verdade, é que já passaram tantos anos, desde que tomei a tal decisão, ser apenas bom, e o que constato hoje? É que não consegui, fui lá agora só bom, portei-me sempre da mesma forma. Uns dias esforcei-me mais, outros esforcei-me menos. Houve dias, em lá me lembrei da decisão, também o que é que importava. Nunca tinha dito a ninguém e se não cumprisse a promessa, não cumpria. Houve igualmente dias de enorme angustia, de revolta completa. Há Zé, então, bolas, uma coisa que é tão fácil, ser bom e tu, nada. Cometes hoje, os mesmos erros que cometeste sempre. Afinal o que mudaste? Que bem fizeste? Nada, não foi?.  Aqui estou Eu, no jardim, no tal banco do jardim, estou farto de ralhar com os gaiatos, aqueles ali dos baloiços, só o que fazem é mal, aí andam a estragar as flores e eu aqui estou, a proteger estes Malmequeres. À bocadinho, fui arrancar dois malmequeres, e de pétala em pétala, fui perguntando: “- Portei-me, bem, Portei-me mal?, Curioso, os malmequeres, acabaram assim como eu, carequinhas. Mas o pior é que sem duvida, são muito mais as pétalas do portei-me mal, do que as do portei-me bem. Que triste constatação, esta, a do resumo da minha vida. O mais difícil, não foi o desafio que lancei a mim mesmo. O mais difícil foi o nunca entender, porque é que, sempre que tentei ir pelo bem, o Mundo também não me ajudou. Recordo as palavras que um homem uma vez me disse: “ – Para ser Mau, não é preciso nada, está tudo em nós. Para ser bom, é preciso tudo. Além de ti, tens que mudar os outros e muitos, não estão dispostos a tal mudança…”

“Outra vida…”

“- Estou no Céu, acabei de chegar e encontro-me com deus”, “ – Então Zé, conta-me lá o que fizeste lá por baixo? “ – Nunca pensei que um dia me fizesse esta pergunta! Não me diga, que não viu o que andei a fazer lá por baixo?” “ – Não? Então julgas, que consigo olhar para todos lá em baixo? Que importância julgas que tiveste? Que importante te julgas, para pensares que Eu, perderia o meu tempo a olhar para ti? Estás-te a esquecer que, tiveste tudo. Trabalho, água, pão, divertimento. Tens por acaso noção de quantos não têm trabalho? Não tem nada para comer? E as suas vidas se resumem a aproveitar o que os outros não querem?. Terás Tu por acaso noção que, desde que iniciamos esta conversa, lá em baixo já morreram milhares de pessoas à fome, por não terem sequer, aquele pequenino pedaço de pão, que tu, todos os dias ias dar aos pardais do jardim? Terás Tu, a mínima noção de quantos agora, pelo mundo fora, não morreriam, se pudessem aproveitar uma única gota da água que tu deitas no autoclismo? E vens-me perguntar, cheio de admiração, porque não te observei, enquanto lá andaste por baixo? A ti dei-te tudo. Nasceste com tudo. Pai, Mãe, família. Um corpo perfeito. Já alguma vez pensaste como vivem aqueles, que não conseguem; ver ou andar? Alguma vez, por acaso, olhaste para os teus irmãos, que embora te parecendo tão normais, não conseguem raciocinar? Por acaso, alguma vez percebeste que, há quem nem sequer tenha mãos, para realizar um gesto tão simples como levar a comida à boca? Ou subir uma escada? E já agora, diz-me lá, se soubesses que Eu, não te estava a observar, ainda te portavas pior?. Agora sim, é chegada a altura, diz-me lá como te portaste? “ – Mal. Concerteza. Depois de tudo o que me disse, não lhe posso dizer que me portei bem. Vivi, sempre a pensar em mim. Jamais me lembrei dos que, morrem à fome ou de sede. Jamais me preocupei em ajudar aqueles que, não tento, fisicamente todos os recursos, reclamavam a minha ajuda. Fiz uma vida de, boa vida, nada me faltou”, “ – Já agora, diz-me outra coisa, foste feliz?”, “ – E há alguém feliz?”, “ – Não sei, diz-me tu. Tu é que andaste lá por baixo.” “ – Mas Deus também andou e viu como se vive lá por baixo. Sabe bem que, todos querem ter mais que todos, todos vivem para o seu próprio bem, todos fazem caminho, muitas vezes, pisando os outros e pouco se importando como chegar lá a cima. Nós todos, pelos vistos, fazemos as coisa mal. Mas já agora, se me permite, deixe-me perguntar. Porque nos fez assim?, Porque não nos fez a todos bons? Porque temos todos tantos defeitos?”,  “ – Enganaste, Zé. Eu fiz, todos os homens iguais. Apenas lhes dei características físicas diferentes. Fiz equilíbrio de inteligências e talentos. Coloquei ao alcance todos os mesmos meios, o problema é que, com o decorrer dos anos, foram delapidando tudo o que vos dei. Criaram guerras e destruíram territórios, esventram a terra e poluem o ar puro que sempre vos dei, lançam na água os frutos dessa cega evolução. Sob a capa do futuro e da modernização, tudo têm destruído e nem sequer se lembram que o futuro, é sempre amanhã e os de hoje, já cá não estarão. Vivem à conquista do futuro, destruindo o presente e tornando insuportável a vida dos seus próprios filhos. Ainda assim, digo-te: Não julgues que todos foram e são maus. Não. Muitos houve e há, que sempre souberam utilizar, tudo o que lhes coloquei ao alcance e o fizeram para o bem de todos, esses, estão de facto comigo no céu. Tu, enganas-te, abre os olhos, não estás no céu. É a tua consciência que te fez vir ter comigo, ao menos tiveste a coragem de reconhecer que a tua vida não presta. Acho que ainda vais a tempo. Acorda, vai viver e se por acaso ligaste ao que te estive a dizer, pode ser que um dia, te encontres de verdade comigo. Aqui no Céu…