“Auto-retrato…”

“ – Auto-retrato, assim decidi chamar ao quadro que acabei de pintar hoje. É incrível, como sendo talvez o mais disforme dos meus quadros, me pareça ao mesmo tempo o mais verdadeiro. Esta, foi a constatação a que cheguei, no fim de trinta anos de pintura. Um dia, decidi fazer um retrato, não o meu, mas qualquer coisa que me viesse à cabeça, sem ideias pré-concebidas, só pintar. Comecei pelos braços, depois fiz o corpo, as pernas e por fim a cabeça. Não foi rápido, não. Levou mais ou menos trinta anos e no fim, quando julguei estar pronto, coloquei-lhe uma moldura dourada e fui colocá-lo na garagem lá de casa. Depois de colocado fui buscar uma cadeira, daquelas de baloiço e sentei-me a contemplá-lo. Foi aterrador!, então não é que aquela figura, torta, disforme, feia, praticamente, em tons de cinza e negro, só se parecia comigo!. Aproximei-me mais, afastei-me mais, pu-lo mais alto, mais baixo, olhei de frente de lado e nada. Só o achava parecido comigo. Não conseguia ver mais nada, nem encontrar mais ninguém, se não Eu, ali, torto, feio, disforme e com tão pouco colorido. Decidi, nunca mais vou pintar. Não, cobarde é que não sou, vou assiná-lo, colocar-lhe o titulo de Auto-retrato e expô-lo no hall de entrada, para que todos o possam ver. Lancei um desafio a mim mesmo, vou retocar a minha vida. Desde essa altura que, todos os dias, de manhã, antes de sair para a rua, olho para o quadro e penso, hoje vou retocar mais um pouco da pintura. Já lá vão mais de dez anos, nunca mais pintei, mas acho que é chegada a altura de, mais dia menos dia, fazer outro Retrato. Quero perceber, se o que vier a pintar, ainda se parecerá comigo. Tenho curiosidade, será que me vou encontrar outra vez? Como estarei hoje? Será que ainda me irei encontrar, assim? Tão torto, feio, disforme e descolorido. Confesso, que tenho esperança que possa estar melhor, ou talvez me surpreenda e ainda esteja pior. De qualquer forma, agradeço a Deus, o ter-me dado a possibilidade, de há dez anos me ter encontrado naquele quadro. É que devem ser muito infelizes, aqueles que nunca têm capacidade para se Auto-retratar, julgando sempre, que as imagens distorcidas que encontram, estão na má qualidade da tela e passam a vida a mudar de tintas e pincéis, em vez de mudar a forma de pintar. Repito, é que não deve haver maior infelicidade do que, cobardemente, passarmos a vida a colocar o nome dos outros, nos Auto-retratos que pintamos…”

” – Aqui, sem qualquer duvida, faço o mesmo. Todos os textos, de resto como sempre disse, são um Auto-retrato, sempre assinados por mim e dando graças a Deus por me dar esta coragem, de não me vestir em anonimas cobardias e de me dirigir a vós, assim; nu, assumindo todos os defeitos e encontrando-me em todas as palavras publicadas. Num caminho, que tento fazer, para me tornar melhor…”

1 Comentário

  1. Muito bem Zé !
    Continua a pintar esses quadros que mesmos tortos e feios, só tu os sabes pintar, hão-de levar alguma mensagem a alguém, nunca desistas de os pintares, não mudes a tela nem as cores ás tintas, pois ficariam sem brilho, não te esqueças que a esperança é a ultima a morrer, e tu como homem de coragem que és, um dia nem que seja o ultimo da tua vida , de certeza que irás sorrir, daqueles que um dia se riram de ti !
    Que Deus te ajude na caminhada da tua vida ! Também mereces ser feliz !
    Um beijo de amiga


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