“O Lenhador…”

“ – Nunca mais me esqueci daquele dia, 6 de Outubro de 1870. Era o meu dia de anos, mais propriamente, dos meus 6 anos. Lembro o orgulho da minha Mãe: “- Hoje casas os anos e por isso temos que fazer uma grande festa”. Mas, para mim, não era um grande dia, Eu queria era ser grande. O meu Pai chegou, do seu trabalho no campo e deu-me um grande abraço, com aquele orgulho de quem é Pai e sente os seus filhos a crescer, mas, para mim, o tempo passava tão devagar. Eu queria era ser grande, dizia frequentemente, “ – Eu quero é ser homem, grande, forte, cheio de saúde e dinheiro e depois, um dia, quando já estiver muito rico, quero ter todo o tempo, para viver, quero conhecer o Mundo. Quero que o presente passe depressa. Quero chegar ao Futuro e ser muito rico e feliz.” O meu Pai, mandou-me fazer um grande lume e sentou-me ao seu colo, sem que eu percebesse bem porquê, começou a contar-me esta história: “- Há muitos anos, aqui no Alentejo, havia um homem muito forte. Era um grande lenhador, chamava-se Frederico. Tinha um hábito muito engraçado, todos os dias ao sair de casa, arrancava um malmequer e colocava-o na orelha. Nada temia e nada o parava. Toda a gente gostava de o ver trabalhar. Sozinho, carregava troncos com mais de cem quilos, subia a qualquer árvore, saltava qualquer ribeiro e passava a vida a cantar uma lenga-lenga; “ – Sou bravo, forte valente e ainda hei-de ser muito rico. Do hoje nada quero, porque o amanhã, será todo do Frederico”. Todos os dias trabalhava mais, cada vez carregava troncos maiores, claro que cada vez estava mais rico. Foram anos e anos desta vida e desta lenga-lenga. Um dia, reparou que já não conseguia subir ás arvores, que já nem aquele pequeno ribeiro, que sempre passou num salto, agora conseguia passar e, já nem conseguia apanhar o seu companheiro malmequer, para colocar atrás da orelha. Foi aí que percebeu, que, era altura de ir gozar toda aquela riqueza, que, todos aqueles sonhos para o amanhã, tinham que ser vividos agora, começou a pensar que o tempo lhe começava a faltar, como era possível que, tudo tivesse acontecido assim, tão depressa. Como era possível, que não se tivesse apercebido, que os anos tinham passado tão rapidamente, afinal ele nem os comemorava, estavam todos juntinhos, para fazer uma grande festa amanhã. Entrou a correr em casa, começou a fazer uma grande mala, tinha que iniciar já a viagem, para viver tudo, o que tinha prometido a si próprio. Parou em frente a um espelho, e gritou para a imagem que se reflectia, “ – Anda homem, vamos a isto, agora é que é. Vamos viver.” Nesse instante caiu redondo no chão. Morto. Como que atingido por um raio fulminante, o coração, parou. No dia seguinte, foi o funeral e só o Padre e o cangalheiro o acompanharam.” Tantos anos passaram, hoje, finalmente percebi a história do meu Pai, a que naquela altura não dei importância nenhuma. Fartei-me de trabalhar, casei, tive dois filhos, construí uma boa casa, sempre tive comida e bebida, em fartura. Todos os dias saí cedo de casa, sempre me agarrei ao trabalho e sempre tive a certeza, que um dia, iria cumprir todos os meus sonhos, ainda se lembram? Ter muito dinheiro, saúde, felicidade e ir conhecer o mundo. Hoje, porque as minhas pernas, pela primeira vez não me respondem, percebo tudo. Afinal, os meus filhos já não me cabem nos braços, a minha Mulher já partiu há cinco anos e o Futuro? Está ali à frente, como sempre esteve. Agora, reparo que, gastei tanta saúde para ganhar tanto dinheiro e agora, tenho gasto tanto dinheiro, a tentar recuperar a saúde e, estou mesmo a ver, que quando conseguir reparar tudo, pouco ou nenhum dinheiro terei e o mais grave, é que me parece que também já não vou ter tempo, para a felicidade, que deixei sempre para amanhã…”.   

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