“O farol…”

“ Um dia, há muitos anos, depois de uma noite sem dormir, decidi abrir as portas do farol onde vivia, de par em par. Há algumas noites que já não dormia. O Inverno estava no auge, as vagas eram enormes, não havia barco que se fizesse ao Mar e, raramente saía de dentro do farol, estava desagradável, frio e chuva. Mas naquele dia, enraivecido pelo mau tempo, decidi, abrir a porta e a janela que o farol tinha, decidi absorver todo aquele vento e deixar que a água salgada que o vento me trazia me inundasse, me entrasse pela porta e me salgasse a sonsa vida a que me entregara. Não sei muito bem o que me aconteceu, mas, desmaiei, ou entrei em transe, não sei, talvez do frio, que de tão gelado, cortava. Hoje, apenas lembro aquela voz: “ – Então Faroleiro, agora foi de vez?, Então morreste? Acorda! Abre esses olhos e mais, muito mais, abre os espírito e a alma. Há quanto tempo, não contrarias o vento? Há quanto tempo, não enches esse farol com a luz do Sol? Há quanto tempo, não pedes à Lua que se deite contigo? Ouve-me, com atenção. A tua vida é como este farol. Tens passado todo o tempo, a enviar sinais, a indicar caminhos, a anunciar tempestades e temporais a aconselhar partidas e chegadas. Tens apenas uma porta e uma janela e o pior é que estão ambas, viradas a sul, apenas tens Sol e Lua, quando a bússola os encontra nesse sentido. Então e a tua vida, só tem esse sentido sul? Só consegues ver o Sol e apreciar a Lua de vez em quando? Anda homem, passas a vida a lamentar-te, revolta-te a condição da vida que julgas te terem dado!  Mas Tu, há quanto tempo, não andas só a favor do vento? Há quanto tempo, te entregaste a essa condição de lamentos e revoltas? Há quanto tempo, te julgas conhecedor e tão entendedor das coisa da vida, e te vestes dessa importância inventada, porque permites sair ou entrar no cais os barcos que outros manobram? Os barcos que outros decidem lançar ao Mar. Os barcos que os outros, de mão firme no leme, Lançam contra ventos e temporais. Diz-me, há quanto tempo não caminhas contra o vento? Como queres dormir se, a tua vida se ressume a constatar, a aceitar. Porque não sais contra o vento? Caminhar certo é encontrar o vento errado e vencê-lo. É lançar ao Mar as velas, quando as vagas não estão de feição. É ter coragem, aproveitar o Sal do Mar para temperar os dias. Os que caminham só a favor do vento, não fazem caminho, nem são felizes. São empurrados, pela força que outros provocaram, nada vencem ou conquistam. Não criam protecção para as flores, limitam-se a apanhar as pétalas que o vento arranca. Não fecham a torneira, que alguém abriu. Limitam-se a chorar a inundação. Tu, que tanto te lamentas. Construís-te um farol virado a Sul. Não sei se ainda vais a tempo, mas, aconselho-te o seguinte: Pega numa marreta e enche esse farol de portas e janelas. Uma em cada sentido, assim, terás sempre Sol e Lua, independentemente da direcção em que estejam. Não há maior erro na vida, do que o de, ter apenas uma porta e uma janela é que, para além, de só permitir que o Sol e a Lua lá entrem de vez em quando, limitam igualmente, aqueles que gostariam de entrar nas nossas casas e surgem de lados diferentes daquele onde colocamos as nossas portas e janelas…”

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