“Ao Menos mais uma vez…”

     “Hoje acordei assim, virado para este lado. Quero partilhar convosco uma coisa.     

     – “Gostava de voltar a ser menino, pequenino, outra vez. Poder correr e saltar livremente, assim como quem sente que o mundo nos pertence, assim como quem não sabe que a vida dos grandes é tão chata e difícil. Poder correr atrás dos pardais, poder abraçar-me a todos os cães lá da rua, ás vezes apanhava umas pulgas e umas carraças, mas pronto, para além da comichão, o resto tudo passava e era tão bom.     

     Eram tão boas aquelas brincadeiras todas, com os meus amigos, o Zé Carlos, o Miguel, o Rui, e os outros todos.     

     Que saudades de brincar ás escondidas, aos índios e cowboys. Recordo que apesar de ser cá um índio, fazia quase sempre cowboy, com pistolas, espingardas e tudo.     

     Sabem? Quando era pequenino, fazia uns carrões todos bonitos, todos artilhados, com rolamentos que roubava lá do hóquei. Tinham luzes, guiador, travões, hó, hó, tinham tudo. Até tinham motor, as pernas e a força de outro amigo.     

     Era tudo tão bom.    

     Naquela altura fazíamos grandes jogatanas de hóquei em patins, sim sim, que eu sempre tive algum jeito para o hóquei, claro que ali jogávamos sem patins e as balizas, eram as sarjetas.     

     Nada nos parecia deter, em tudo acreditávamos.     

    No verão, como no nossos tempo não havia piscinas, íamos tomar banho para uns tanques, sempre com um olho no burro outro no cigano, a roupa, pouca, uns calçanitos e uma t-shirt sempre por perto, de vez em quando lá aparecia o dono:

     – “Ah, gaiatos dum raio!” E a gente? Ala que se faz tarde, hó pernas para que vos queremos. No caminho, ainda dava para roubar uma peçazita de fruta, pois pois, estávamos a crescer e a fruta fazia muita falta. Vitamina do quintal dos vizinhos.    

     Tudo do melhor.     

     Lembro-me que andava sempre com os joelhos feridos, eram quedas e mais quedas, e depois quando chegava a casa, para além das feridas e dos arranhões, ás vezes, e não eram poucas, a minha mãe ainda me chegava a roupa ao pêlo. Mas queria eu lá saber, até dessas palmadas tenho saudade.     

     Hoje aqui estou, vejo os miúdos aí pela rua, poucos, no meu tempo éramos bem mais, e sonho com esses tempos. Que inveja tenho deles, mas tenho também pena, porque sei que tudo aquilo um dia vais acabar e quando derem por isso, já tudo passou e aquela boa e feliz vida não volta mais.     

     Como trocava toda esta vida por uns minutos daquele tempo. Apetece-me para terminar dizer como o António Pinho:

     – “Tudo em grande em pequenino,

    Que eu só queria ser menino

    Ao menos mais uma vez…”  

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“Uma questão de sinais…”

     – “Quero partilhar convosco uma das mais extraordinárias conversas que tive nestes meus trinta e oito anos.      

     Há dias, deu-me Deus a possibilidade de conversar e entrevistar, Frei Hermano da Câmara. Toda a minha vida me fascinou aquela figura, tinha estado com ele duas ou três vezes e, apenas tinha trocado alguns cumprimentos de ocasião, recordo uma vez no Instituto Português de Oncologia, numa festa de natal e pouco mais.      

     Para além da sua figura e das suas canções, devo confessar que o que mais me fascinava era a personalidade. Quem seria? Como seria? Que tipo de homem estaria por trás, do que publicamente conhecia?      

     Através de um outro amigo comum, consegui marcar uma entrevista. Da primeira vez e, para grande tristeza minha, a conversa, entenda-se entrevista, não se realizou. Estava marcada para o dia 2 de Dezembro de 2007 no Estoril, em casa de Frei Hermano, eu cantava nessa noite no Casino Estoril e assim, juntava-se o útil ao agradável, mas, quando já estava em Lisboa, fui informado que Frei Hermano tinha adoecido e não seria possível realizar a entrevista. Confesso que fiquei desiludido, decepcionado mesmo. Achei que por qualquer motivo o Frei Hermano havia desistido e, ali, ruíam os meus sonhos de estar, conversar, entrevistar com uma das figuras que mais admirava, que mais me fascinava.     

     Eu, não sou de desistências, nunca desisti ás primeiras e apesar de desiludido sempre acreditei que iria realizar a conversa, iria continuar a tentar. Sei hoje que há muitos anos, Frei Hermano, não concedia entrevistas e que, apesar de num primeiro momento ter concordado, entendeu depois que não estaria interessado e não iria dar a entrevista.     

     Há algum tempo, através da net, vou falando com um rapaz, que passou pelos seminários de Frei Hermano, hoje trabalha no Alentejo e em Espanha e, foi ele que fez a ponte sempre entre mim e Frei Hermano. Um dia voltou a ligar-me e informou-me que parecia que agora é que era, que o Frei Hermano lá concederia a tal entrevista. Já não acreditava muito mas pronto, voltei a contactá-lo e agora afinal já era possível, este amigo lá o tinha convencido a falar comigo e assim foi. Marcou-se o dia, 15 de Março de 2008 ás 16h e lá fui. Agora tudo estava a correr como combinado.

     Instantes antes de chegar a sua casa ligou-me, ainda temi, mas não era só para saber se estava demorado. Entrei na sua casa, seminário, ás 16 horas, saí ás 20h, estava acompanhado de outras pessoas, padres seus colegas e também uma senhora. Conversámos bastante, antes e depois da entrevista, ofereceu-me alguns dos seus discos, eu também lhe ofereci alguns meus, bebemos um cafezinho e talvez tenhamos ficado amigos.     

     Frei Hermano ainda é mais fascinante ali, ao vivo e a cores do que no meu pensamento, inteligente, conhecedor e acima de tudo com uma paz de espírito impressionante, há qualquer coisa nele de divino, não sei, uma luz. É um homem afável e simples de uma humildade só entendível em Cristo e naqueles que, vivem intensamente uma vida suportada em princípios religiosos, nos bons claro e aqui, Eu, não distingo religiões, apenas princípios, que tenho a certeza, os do bem, estarão subjacentes a todas as que querem os bens humanos.     

     Saí com a convicção de que aquele homem possui um dom, não sei se de Cristo se não, mas um dom, eu acredito que de Deus, feito Cristo.     

     Acho que o convenci, que deveria voltar a cantar, que deveria continuar a fazer o seu apostolado através da musica e das suas palavras em Cristo, sei, pela experiência que tenho na rádio todos os dias que as pessoas continuam a adorá-lo e tenho a certeza de que se voltar a cantar e a aparecer regularmente, muitos e muitas se sentirão bem felizes.

     Quase na saída, mostrou-me a sua capela e confessou-me que me entendia ali, na sua casa, com aquela conversa e com a minha ligação à música como se eu fosse portador de um sinal de Deus e ele, sempre tinha vivido de oração e as respostas que Deus enviava ás suas preces eram através de sinais e, Eu, para ele, transportaria um desses sinais, por isso terminou a sua conversa comigo assim:

     – “Sempre vivi de sinais, se Cristo me o enviou é porque me queria dizer alguma coisa e se essa alguma coisa for voltar a cantar, então cantarei. As maiores bênçãos para si…”         

“Serei sempre, aquilo que Deus quiser que eu seja…”

“Uma questão de fé. É assim que, me entrego nas linhas da minha voz alta de hoje. Eu tenho fé, sempre acreditei que existe algo acima de nós. Não me custa aceitar que outros não a tenham ou que professem outras religiões que não a católica. Confesso que isso não me choca. Acredito, que se cada um acredita em algo e se o viver intensa e seriamente, não há problema. Se cada um de nós acreditar em Deus, ainda que cada um possa vestir esse Deus com as roupas que bem entender. O que importa é que seja um deus de verdade, justo e bom. Não me preocupa nada que outros acreditem em outros deuses, que sintam, acreditem que há um Cristo crucificado ou não, terreno ou celeste. Não tenho a férrea certeza que, o deus certo está no novo ou no velho testamento, não tenho todas as certezas de Santos, Santas e não coloco nem retiro ninguém do altar. Eu sou católico, pratico tanto quanto o possível, tenho necessariamente momentos de dúvida. Mas, tenho igualmente momentos de grande esperança e uma fé, que pelo menos até agora tem sido inabalável. Tenho tido ao longo dos tempos grandes dificuldades, como já vos disse, perdi o meu pai ainda muito novo, perdi um dos meus irmãos. Tenho tido outras dificuldades, tenho perdido amigos e alguns ainda estão vivos. Mas apesar de tudo, tenho sentido que tudo seria mais difícil se não tivesse Cristo na minha vida. Não encho os meus olhos na cegueira de olhar num só sentido, não. Mas não os encho igualmente na dúvida e na descrença. Aceito que se tudo isto me aparece é porque deus entende que tenho a coragem, a força e os instrumentos para resolver todos os meus problemas. Como já disse noutros momentos, aquilo que espero é que Deus nunca desista de mim, porque eu não quero nem posso desistir. Acredito, sem dúvidas que dos fracos não reza a historia e se há vezes em que erro, que falho. Também há outras em que acerto e penso muitas vezes que sou assim porque sou eu, e é isso que me caracteriza. Se fosse aquilo que os outros quisessem que fosse, então não seria eu. Espero e quero ter sempre esta força, que apesar de reconhecer que tenho muitos erros, é porque Deus, o tal Deus em que acredito, quer que eu seja assim. Acredito que cada um, é como é e mais nada. Quando falam de mim, conhecem-me, porque sou assim e por isso me chamam, Zé, este Zé, se não fosse assim, não era eu. O que me caracteriza é esta minha forma de estar e de ser, agradarei a uns, não agradarei a outros e não estou á espera, nem quero, que seja aquilo que os outros querem que eu seja, espero e quero ser sempre aquilo que Deus quiser que eu seja, com defeitos e virtudes, com fé e esperança acima de tudo, e tal como o sorriso de Cristo enquanto agonizava na cruz, ponho na agonia de alguns dos meus dias, o sorrido de Cristo e quando um dia deixar de ser capaz de sorrir e lutar perante as dificuldades, que o meu Deus em agonia possa chorar e se o fizer espero que alguns possam vir chorar com ele, porque quando isso acontecer, será de certeza porque cheguei ao fim…”

“LANÇAMENTO DO LIVRO, EM VOZ ALTA, DIA 1DE MAIO DE 2008, NA FIAPE. EM ESTREMOZ

“Os três meninos da beira da estrada..”

 “ – Porque o egoísmo nos cega e cega os outros. Nunca deixem de acreditar. Nunca deixem que vos pisem. Nunca julguem que o fim é a única solução. Não há maior martírio do que uma vida sem fé e esperança. Não quero que se fechem, numa crença, não quero que julguem que, a religião A, B ou C, é a melhor. Não quero que a voracidade dos dias, vos retire capacidade de análise e acção. Não quero acreditar que, alguém acredite que a terra está parada e somos nós que nos movemos, por isso, alguns encontram o Sol mais depressa e outros não se livram da Lua. Não quero ver braços fechados nem demasiado abertos. Se uns evitam que alguém se encoste ao peito, os outros permitem que todos possam roubar o coração. Não quero arco-íris de chuva e sol. Quero cores de chuva a alimentar a vida e cores de Sol na noite do pranto. Não quero a revolta de mentes doentes, nem exageros de ganâncias tontas. Não quero a tristeza dos insatisfeitos. Não quero nada, porque nada me falta, do nada que tenho que sempre me sobra.” “Conheci três meninos, irmãos, na beira da estrada. Um muito alto, outro muito gordo, o terceiro muito baixo. Todos choravam, na beira da estrada. “ – Sou tão alto, na mesa estou tordo, ao chão nunca chego”, “ – Pior estou eu”. Gritava o mais gordo: “ – Aos frutos do alto não chego, apenas me serve a mesa, mesmo à altura da boca. Do chão nada provo, pois mal me dobro.” “ – E eu?” Exclamou o mais baixo. “ – Das árvores não provo os frutos e da mesa também não, apenas consigo o que a terra me dá.” Do outro lado da estrada, sentado em frente destes, estava um louco. Cantando. Alegre. Levantou-se, dirigiu-se ao três irmãos e: “ – Loucos, são vocês. Tu, hó grande! Vê se te calas. Vai apanhar os frutos das árvores mais altas. Apanha muitos, para quatro dias e põe aqui, no chão, à vossa frente. Tu, tonto gordo. Vai a casa, senta-te à mesa, não comas nada. Traz comida e bebida suficiente para quatro dias e põe aqui no chão, à vossa frente. Por fim tu, choramingão mais pequeno, vai à horta, traz legumes para quatro dias e põe aqui no chão à vossa frente. Já, os três.” “ – Assim fizeram, quando chegaram, em uníssono disseram:” “ – Tu, és louco, apenas por medo de ti fizemos o que mandaste. “ – Agora, para que quero eu tanta fruta?” “ – E Eu, tanta comida e bebida?” “ – E eu, vou passar o resto da vida a comer alfaces e batatas e alguns morangos?”. “ – Não, meninos egoístas, o que trouxeram, dá para os três, dividam tudo, partilhem tudo e assim tudo terão. Se vivessem com menos egoísmo, nunca chorariam, aproveitariam as qualidades que cada um tem. Se em vez de chorarem, por não ter cada um por si tudo e unissem forças para o bem-estar dos três. Nada vos faltaria. Tem tudo. Juntos. Altura, força e flexibilidade. Apenas vos tem faltado coração.” Ficaram quedos e mudos, até que o mais alto, em voz muito baixa disse: “ – Mas se somos três, porque nos mandaste trazer tudo para quatro dias?” “ – Simples, porque tinha a certeza, que no vosso egoísmo, nunca se lembrariam de mim e Eu, também tenho fome e sede…”   

“A escada…”

“ – Chamo-me Jonh Taylor, nasci no Arkansas. Sou professor de Filosofia, tenho sessenta e dois anos e hoje, preparo este livro para apresentar no dia da minha reforma. Faltam só dois meses. Quero deixar, neste livro, a mais brilhante explicação, que alguma vez ouvi, sobre a vida. Eu, teria vinte e cinco anos e estava no meu primeiro ano de professor, um dia, convidei os meus alunos, para uma aula campestre, junto ao rio que banhava as margens da escola. Pedi-lhes, que cada um, por si, me falasse da vida, numa perspectiva filosófica. Tinha, na aula anterior, sugerido a leitura da “Utopia” de Thomas More e, o objectivo, é que cada um, pudesse apresentar, uma filosofia de vida. A verdade é que fui, completamente surpreendido, pelo mais novo dos meus alunos, chamava-se, Fernando, era oriundo de umas famílias latinas, pobres. Recordo, que era dos menos participativos alunos, até àquele dia. Levantou-se e pediu que não fosse interrompido até ao fim da sua “Filosofia de Vida”, “A Escada”: “ – Sou filho de uma família de carpinteiros, o meu Pai é um homem forte, a minha Mãe, apesar de ser mulher também trabalha na carpintaria, um dia, há muitos anos, decidiram construir uma escada, de madeira claro. De início, discutiram bastante, não sabiam exactamente por onde começar. O meu Pai, achava que se deveria começar pelo corrimão. A minha Mãe, achava que não, isso seria no fim. Felizmente que o meu avô paterno ainda era vivo e, com a calma e sabedoria dos seus muitos anos, lá conseguiu, que a escada começasse por baixo e aconselhou, “ – Primeiro, façam a estrutura, onde os degraus irão assentar, sempre de baixo para cima”. Assim foi, a estrutura, levou alguns anos a fazer, nem sempre a madeira era a indicada, outras vezes, as marteladas não eram certas. Vezes houve em que se teve de parar, porque, quer o meu Pai, quer a minha Mãe, erravam as tábuas, acertavam neles próprios, feriam-se e claro, era preciso dar tempo para se curarem. Depois, das feridas saradas, lá continuavam a construção da escada. Quando a estrutura ficou pronta, decidiram ir arranjar as tábuas para os degraus, a escolha da madeira não foi fácil, desde a textura, à espessura, comprimento e cor. Mais uma vez, surgiu o meu avô. “ – Arranjem tábuas fortes e à medida dos vossos pés, cuidado com as pisadelas, atenção ao sitio onde colocam as mãos, vejam se não deixem cair nada, que possa atingir quem estiver abaixo de vós e atenção à largura dos degraus, não os façam muito grandes, contem com o tamanho das vossas pernas e, como essa escada é para toda a vida, não façam degraus muito altos, nem muito longos, amanhã, podem não ter pernas para os subir. Apenas passem para o degrau seguinte, quando o anterior for devidamente seguro.” Assim fizeram, os degraus eram médios, as tábuas mais ou menos fortes. Nem todas, algumas quebravam-se logo no espetar dos pregos, outras à primeira pisadela, não suportavam o peso. Lembro que era o meu Pai que escolhia as tábuas, mas era a minha mãe que colocava os pregos, uns maiores, outros menores, mas todos com grande certeza, uniam claramente toda a estrutura, apesar de serem pregos, eram colocados com carinho e amor, e dava a sensação que a escada percebia. Ia-se tornando, forte, robusta e ao mesmo tempo doce e sensível. Cada vez que um prego era mal colocado, dava a sensação que chorava. Houve muitos pregos que foi necessário retirar. Um dia, quando a escada ia mais ou menos a meio, o meu avô, foi visitar a obra e, mais uma vez, parando a sucção do seu charuto de companhia, disse: “ – Não está má. Quer-me parecer que esta é a altura ideal para começar a colocar o corrimão.” O meu Pai, disse logo: “ – Não senhor. O corrimão será feito quando a escada estiver pronta.” Mais uma vez, o meu avô, naquele jeito de quem já tinha construído a sua escada, informou: “ – Esse é o maior erro. Em função da altura a que os degraus já estão, há que fazer o corrimão. Porque se te desequilibrares, sempre terás onde te agarrar.” Claro que uma vez mais, o conselho foi seguido. Vezes houve e não foram poucas, em que o corrimão deu grande jeito. O meu Pai, algumas vezes, saltava os apoios dos degraus e queria logo pôr três ou quatro mais a cima, do local onde deveria e logo se desequilibrava, ou porque as pernas não davam, ou porque a escada, ainda não tinha a segurança suficiente e lá vinha ele por ali a baixo, se não fosse o corrimão, tinha dado cada trambolhão. A verdade é que lá a construíram, os dois, com os conselhos do meu avô, claro. Quando ficou pronta, foram com todo o orgulho chamar o meu avô. “ – Então o que acha?” “ – Tem algumas imperfeições, há degraus menos bem colocados, há buracos de pregos nos sítios onde foi necessário retirar alguns pregos, tem algumas cavilhas, que nunca aceitaram todas as pancadas. Mas não está má. Agora, não se enganem. Escolham bem onde querem chegar e vejam se a apoiam na parede certa.” Eu, aqui estou e para chegar aqui, tenho utilizado a escada que eles construíram. Umas vezes utilizo-a para subir, outras para descer, ás vezes, quero subir muito depressa e tropeço, o que me vale é o corrimão. Enfim, é uma escada, que apesar de tudo, sempre teve a resistência que me permite utilizá-la, com toda a segurança…”      

“Viver não custa…”

“A vida não custa, custa é saber viver…” “ Este é um provérbio tantas vezes ouvido. Eu não sei se tenho vivido ou sabido viver. Se calhar, até nem tenho sabido. Hoje estou assim, para este lado. Talvez nostálgico, talvez saudosista ou, talvez só Eu, mesmo Eu. Sem capas ou subterfúgios. Quero-vos dizer abertamente, que nunca me senti feliz. Claro que como todos já tive momentos de grande felicidade, mas que isso seja uma realidade, presente na minha vida. Não. Também não vos quero surpreender, ou fazer-me desgraçadinho, que vos possa dizer também, que se há coisa que me desagrada, é aqueles que se fazem de coitadinhos e passam a vida a usar as pessoas, utilizando a sua suposta má vida, reflectida em tristeza. Não, o que quero dizer é honesto, aqui para o papel, quero, deixar que não sou propriamente um poço de virtudes. Tenho algumas qualidades, naturalmente, mas, estou tão longe da vida que desejei. Sabem? Adorava ser um grande cantor, de fado, claro. Adorava poder pôr em prática uma série de ideias que sempre me encherem os sonhos. Mas, tenho estado tão longe de o conseguir. Não quero ser falso, portanto não irei dizer que, não há coisas que me não me tenham corrido bem. Claro que há e, algumas delas tem-me dado grande felicidade, mas, sou muito emotivo, amo as coisa com uma intensidade, que ás vezes nem eu entendo. Tenho o coração muito perto da boca, sou muito piegas e não suporto ver ou fazer sofrer. Acreditem, desta vez estou a falar a sério. Sei que muitas vezes posso aparentar, muitas coisas, mas garanto-vos, muito poucas estarão perto do que sou e penso na realidade. Sabem, tenho sido acusado de muita coisa, algumas, profundamente injustas. São o preço da minha exposição e forma de estar, dizem alguns. É certo, assim será algumas vezes, mas quero-vos hoje aqui garantir, olhos nos olhos, de que na maioria da vezes, me sinto tão triste com os rótulos que me põem. Mas a vida é isto e, quando fiz a tal opção de não ser cinzento, sabia que me iria sujeitar a estas coisas, é sempre assim. Há quem, por motivos que muitas vezes só os próprios conhecem, se apresse a destruir-nos, têm-me sido apresentadas facturas, caras, algumas muito caras mesmo. Sabem? Assim de forma sucinta: Nasci em Estremoz, uma cidade pequena no Alentejo. Aqui cresci, desde pequenino que, tive dois amores, o hóquei, herança do meu Pai, que faleceu quando eu tinha doze anos e o Fado. Herança da minha mãe, que cantava muito bem e ainda cá está, felizmente. Ao longo dos anos, cá fui desenvolvendo a minha actividade nestas duas áreas. Aos quinze anos comecei a fazer rádio, que se acabou por tornar na minha profissão. Já lá vão mais de vinte anos e ainda cá estou. Por culpa da minha paixão pelo desporto, passei por outros clubes que não só o Estremoz, Évora e Marinha Grande. Fui igualmente presidente do Clube da minha terra, não posso dizer que as coisas tenham corrido muito mal ou muito bem, sei que me fartei de lutar e trabalhar, acabei por pagar uma factura demasiado alta, pela avaliação que fiz de alguma situações, mas uma vez mais…é a vida, não é? No fado, tenho feito algum caminho, já gravei uma série de discos, tenho igualmente escrito para alguns amigos, uma descoberta que fiz, nesta fase mais recente da minha vida. Enfim, volto à expressão inicial, lamento desapontar, mas acho mesmo que custa viver e muito, ou pelo menos a mim tem custado. Tenho que vos confidenciar, que embora esteja nas áreas que mais me fascinam, até agora, nunca fui verdadeiramente feliz. Não sou de facto daqueles com muitos amigos, não passo, ao contrario do que pensem a vida em festas. Não tenho de forma alguma a vida que sempre desejei ter. Mas não pensem que já desisti. Não, sabem também tenho algumas qualidades e não desisto ás primeiras. Acreditem e tem sido nos momentos mais difíceis, que tenho percebido, do que nós, humanos somos capazes. Não sei o que vou ser, não sei o que me reserva Deus para amanhã. Mas garanto-vos, que para já não penso em desistir. Nem que seja no ultimo dia da minha vida. Mas quero pelo menos, nem que seja só por um dia, acreditar que valeu a pena. Sabem? Tenho sonhado muito com a felicidade, talvez até já tenha sido um bocadinho feliz, em pequenino, ás vezes lembro-me desses tempos e, se calhar, aì, até soube viver, porque nessa altura, tinha tudo, tudo do que precisamos para ser felizes. Os meus Pais, os meus irmãos e todos os sonhos, afinal, é preciso tão pouco para se ser feliz. Hoje percebo, que quando nascemos temos a felicidade completa, nós é que no tal processo de saber viver, nos iludimos. Saber viver, afinal não custa. O que custa mesmo é viver, porque para se viver, basta existir. Para se saber viver, basta fingir…”

“Que importancia têm os sapatos…”

“Hoje, encontrei um pensamento e decidi escrever este texto…”“ – Que vida a minha. Estou farto. Assim pensei antes de chegar aqui: Nada tenho, melhor, nunca tive nada, nunca tive sequer uns sapatos para calçar e agora, que os posso ter, também os não quero; “ – Sou filho, de um dos mais pobres bairros de São Paulo. Assisti, à morte da minha mãe e do meu irmão. Um dia, entraram na favela, uns homens de um outro bando, procuravam o meu Pai, que de resto nunca foi um Pai, apenas dormia lá em casa. Vivia com a minha mãe, comigo e com o meu irmão mais novo, apenas para ter um tecto, ainda que de uma barraca se tratasse. Como estava a dizer, aquele que, apenas se utilizava sexualmente da minha mãe, era um dos mais importantes distribuidores, de armas e droga. Mas, no bairro, com mais de dez mil pessoas, havia outros homens iguais e cada um lutava pelo seu território, pelos seus clientes. Eram constantes as brigas, eram constantes as mortes, sempre vivemos aterrorizados e ao mesmo tempo indiferentes, àquele jogo. Não havia dia, em que não morresse alguém, por norma, inocentes, sempre apanhados, no caminho de uma bala, que jamais se importava em quem atingiria. No fim, contavam-se os mortos, e o gang vencedor, nessa noite, embriagava a loucura até ás tantas. Amanhã havia mais e nem importava, que um dos celebrantes, amanhã fosse chorado. Acho que, também, ninguém se importava com isso, o importante era hoje estar vivo. Com tal miséria de vida, vezes houve em que supliquei uma daquelas balas sem destino. Ainda bem, que não fui ouvido nas minhas preces, até porque sempre pensei, que Deus, há muito se tinha retirado daqueles bairros do meu Brasil. Um dia, eram umas quatro da manhã, o meu Pai, celebrava a vitória desse dia, pois gabava-se, no mais alto que a sua voz atingia, de ter morto o seu grande rival. Chamava-se Florimundo Esperança e para meu espanto, no partilhar de tão alto momento, contava o meu Pai que havia morto, o seu grande amigo de infância, haviam crescido juntos e um dia, o grande chefe das máfias convidou-os para lideres e, assim foi, cada um criou o seu gang e, o objectivo estaria cumprido, sob pacto de sangue, quando um conseguisse matar o outro. Assim foi, o meu Pai, matou o seu amigo de infância. Nessa noite, pelas quatro, como já disse, enquanto o meu pai comemorava, vi entrar na barraca, um menino da minha idade, não teria mais de sete anos, de arma em punho. Irrompeu bela barraca e, matou ali, à minha frente a minha mãe e o meu irmão. O meu Pai, foi igualmente atingido, não sei se morreu, mas teve tempo de agarrar numa pistola e matar aquela criança. Eu, fugi, refugiei-me num convento, que existia a uns poucos quilómetros das favelas, de uns monges Paulistas. Por lá vivi até à semana passada. Agora, aqui estou, pediam missionários para Africa e decidi aceitar o desafio. Amigo diário, hoje quando cheguei, foi o dia mais feliz da minha vida. Encontrei um menino, assim de cor como eu, estava sentado, à frente da sua palhota, meio tapado. Fui falar com ele e, ensinou-me tanto, falou-me de tudo, da sua Africa, dos animais, dos amigos, com uma felicidade que jamais encontrei em alguém. Eu, aproveitei para lhe falar dos meus tempos de menino, das minhas dificuldades, da má vida que sempre tinha levado, disse-lhe que era infeliz, porque, nunca tinha tido sequer, uns sapatos para calçar. Destapou-se, apenas tinha pernas até aos joelhos e, respondeu-me assim: “ – Amigo, a felicidade está no nosso espírito e no nosso coração. Quando tinha dois anos pisei uma mina e fiquei assim. Que importância tem não ter sapatos, quando nem sequer temos pés para os calçar…”