“A historia do velho Anselmo…”

“- Despedi-me de todos. Fiz-me áquela difícil montanha, que, em tantas outras alturas, me parecia tão acessível. Não sei se da idade, ou pela falta de saúde, mas nunca me tinha custado tanto. E logo agora, que tinha decidido, subi-la pela ultima vez. Era ali que ia sempre que queria rezar, sempre o fiz, talvez porque ali, me sentisse mais perto de Deus. Mas desta vez, não era bem assim. Decidi subi-la pela ultima vez, porque, queria olhar o céu de perto e afastar-me decididamente da terra. Queria ir o mais alto possível, talvez, lá mesmo até aquele penhasco que, nunca tive coragem de subir, lá, onde as Águias descansam e de onde se lançam em voos picados, sobre as suas presas. Queria ao mesmo tempo, apreciar a força da natureza. Sempre subi, apenas com a finalidade de rezar, nunca o fiz, para apreciar as ervas, arvores ou flores. Nunca o fiz para olhar para os animais, e eram muitos os que por ali havia, desde os Coelhos, Raposas, Cabras e Lobos, até aos mais pequenos Pardais, Rouxinóis ou Verdelhões. Curioso, sempre soube que ali viviam, mas nunca os apreciei. Sei também que existiam, pedras seculares, vestígios de outras gentes e outros animais, mas também nunca os vi. Como é possível, viver anos a fio, ali, na base daquela montanha, que todos os dias me enchia os olhos, sem nunca ter tido a coragem de perceber que vida ali havia. Como era possível, que todo aquele esplendor, nunca me tivesse impressionado. Talvez, por viver impressionado com a minha própria vida e me fechar em tal grandeza, nunca tivesse reparado que ali ao lado, sem esforço nenhum, tudo era mais grandioso. Eu, toda a vida fiz um esforço, tremendo, para ter uma vida grande e, ali, tudo era grande naturalmente. Foi então, quando comecei a subida, que me apercebi que, um pequeno pardal me acompanhava. A minha subida, estava a tornar-se cada vez mais dolorosa, parei vezes sem conta. Desta vez queria apreciar tudo, pensei vezes sem fim em, quem teria plantado aquilo tudo, quem alimentaria tantos animais, como era possível tanta e farta vida. Comecei a vacilar, as forças estavam limitadas mas, lá estava aquele pardal, sempre há minha frente. Parou todas as vezes que parei, quando achava, que já estava a descansar há muito tempo, começava a piar, de uma forma tão estranha, aflito, como que, a pedir para continuarmos. Tenho que confessar que, a partir de determinada altura, era ele que me indicava o caminho. Mas, como sabia ele que Eu queria ir até ao alto e o pior é que Eu não lhe revelei as minha verdadeiras intenções. Na verdade, Eu subia, com o propósito de, bem lá do cimo, me atirar por ali abaixo. Sentia que a minha vida estava vivida e que tinha chegado ao fim. Não suportava a ideia de me sentir inútil, já ninguém me procurava para coisa nenhuma, nem para conversar, excepto, agora, aquele pequenino Pardal. E era medonho, porque me sentia conduzido, para a morte. Quando chegámos ao cimo, mesmo na ultima rocha, o pardal pousou ao meu lado, sofregamente piou, até que se começou a ouvir o piar aflito de dois pequeninos pardalinhos, o ninho tinha caído e bastava que o vento se tornasse um bocadinho mais forte, para que caísse de vez. Ali compreendi, a aflição da sua mãe, que me acompanhou na subida, conduzindo-me até aquele local para lhe poder salvar os filhos. Assim fiz, recolhi o ninho, coloquei-o na copa de uma arvore e, fui invadido, por um sentimento de missão cumprida. Dirigi-me para a ponta da rocha, no alto da montanha. Ali, onde estava só Eu e Deus e, aquele pequeno pardal, em voltas e voltas de alegria. Quando me preparava para o meu acto final, ele baixou, veio direito a mim, pousou-me no ombro e deixou-me depositado na lapela um pequenino ramo de oliveira. Rezei, agradeci a Deus por me ter enviado aquele pequeno Pardal. Afinal, Eu, que estava à beira do fim, senti-me ali, tão útil àquele pequeno pardal. Ás vezes, na grandeza dos nossos dias, não nos preocupamos, com quem apenas, precisa de uma mão, de um gesto tão simples. Para voltar a colocar a vida no lugar certo. Desci a montanha, plantei o raminho de oliveira na frente da minha casa e hoje, todas as manhãs, acordo com o chilrear de centenas de pardais, que fizeram da minha árvore a sua casa de dormir. Sei que sabem, que os protegerei. Logo agora que pensava já saber tudo, tudo tenho aprendido com aqueles pequenos companheiros. De manhã, todos os dias, apesar de sobre a minha casa voar um bando de águias, os meus pardais se arriscam em voos de felicidade, acreditando que o céu, não é só das águias, mas de todos os que têm a coragem de arriscar…E nunca sabemos, quem nos espera, para lá do precipício…”

Deixe um comentário

Ainda sem comentários.

Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s