“Que importancia têm os sapatos…”

“Hoje, encontrei um pensamento e decidi escrever este texto…”“ – Que vida a minha. Estou farto. Assim pensei antes de chegar aqui: Nada tenho, melhor, nunca tive nada, nunca tive sequer uns sapatos para calçar e agora, que os posso ter, também os não quero; “ – Sou filho, de um dos mais pobres bairros de São Paulo. Assisti, à morte da minha mãe e do meu irmão. Um dia, entraram na favela, uns homens de um outro bando, procuravam o meu Pai, que de resto nunca foi um Pai, apenas dormia lá em casa. Vivia com a minha mãe, comigo e com o meu irmão mais novo, apenas para ter um tecto, ainda que de uma barraca se tratasse. Como estava a dizer, aquele que, apenas se utilizava sexualmente da minha mãe, era um dos mais importantes distribuidores, de armas e droga. Mas, no bairro, com mais de dez mil pessoas, havia outros homens iguais e cada um lutava pelo seu território, pelos seus clientes. Eram constantes as brigas, eram constantes as mortes, sempre vivemos aterrorizados e ao mesmo tempo indiferentes, àquele jogo. Não havia dia, em que não morresse alguém, por norma, inocentes, sempre apanhados, no caminho de uma bala, que jamais se importava em quem atingiria. No fim, contavam-se os mortos, e o gang vencedor, nessa noite, embriagava a loucura até ás tantas. Amanhã havia mais e nem importava, que um dos celebrantes, amanhã fosse chorado. Acho que, também, ninguém se importava com isso, o importante era hoje estar vivo. Com tal miséria de vida, vezes houve em que supliquei uma daquelas balas sem destino. Ainda bem, que não fui ouvido nas minhas preces, até porque sempre pensei, que Deus, há muito se tinha retirado daqueles bairros do meu Brasil. Um dia, eram umas quatro da manhã, o meu Pai, celebrava a vitória desse dia, pois gabava-se, no mais alto que a sua voz atingia, de ter morto o seu grande rival. Chamava-se Florimundo Esperança e para meu espanto, no partilhar de tão alto momento, contava o meu Pai que havia morto, o seu grande amigo de infância, haviam crescido juntos e um dia, o grande chefe das máfias convidou-os para lideres e, assim foi, cada um criou o seu gang e, o objectivo estaria cumprido, sob pacto de sangue, quando um conseguisse matar o outro. Assim foi, o meu Pai, matou o seu amigo de infância. Nessa noite, pelas quatro, como já disse, enquanto o meu pai comemorava, vi entrar na barraca, um menino da minha idade, não teria mais de sete anos, de arma em punho. Irrompeu bela barraca e, matou ali, à minha frente a minha mãe e o meu irmão. O meu Pai, foi igualmente atingido, não sei se morreu, mas teve tempo de agarrar numa pistola e matar aquela criança. Eu, fugi, refugiei-me num convento, que existia a uns poucos quilómetros das favelas, de uns monges Paulistas. Por lá vivi até à semana passada. Agora, aqui estou, pediam missionários para Africa e decidi aceitar o desafio. Amigo diário, hoje quando cheguei, foi o dia mais feliz da minha vida. Encontrei um menino, assim de cor como eu, estava sentado, à frente da sua palhota, meio tapado. Fui falar com ele e, ensinou-me tanto, falou-me de tudo, da sua Africa, dos animais, dos amigos, com uma felicidade que jamais encontrei em alguém. Eu, aproveitei para lhe falar dos meus tempos de menino, das minhas dificuldades, da má vida que sempre tinha levado, disse-lhe que era infeliz, porque, nunca tinha tido sequer, uns sapatos para calçar. Destapou-se, apenas tinha pernas até aos joelhos e, respondeu-me assim: “ – Amigo, a felicidade está no nosso espírito e no nosso coração. Quando tinha dois anos pisei uma mina e fiquei assim. Que importância tem não ter sapatos, quando nem sequer temos pés para os calçar…”  

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