“A escada…”

“ – Chamo-me Jonh Taylor, nasci no Arkansas. Sou professor de Filosofia, tenho sessenta e dois anos e hoje, preparo este livro para apresentar no dia da minha reforma. Faltam só dois meses. Quero deixar, neste livro, a mais brilhante explicação, que alguma vez ouvi, sobre a vida. Eu, teria vinte e cinco anos e estava no meu primeiro ano de professor, um dia, convidei os meus alunos, para uma aula campestre, junto ao rio que banhava as margens da escola. Pedi-lhes, que cada um, por si, me falasse da vida, numa perspectiva filosófica. Tinha, na aula anterior, sugerido a leitura da “Utopia” de Thomas More e, o objectivo, é que cada um, pudesse apresentar, uma filosofia de vida. A verdade é que fui, completamente surpreendido, pelo mais novo dos meus alunos, chamava-se, Fernando, era oriundo de umas famílias latinas, pobres. Recordo, que era dos menos participativos alunos, até àquele dia. Levantou-se e pediu que não fosse interrompido até ao fim da sua “Filosofia de Vida”, “A Escada”: “ – Sou filho de uma família de carpinteiros, o meu Pai é um homem forte, a minha Mãe, apesar de ser mulher também trabalha na carpintaria, um dia, há muitos anos, decidiram construir uma escada, de madeira claro. De início, discutiram bastante, não sabiam exactamente por onde começar. O meu Pai, achava que se deveria começar pelo corrimão. A minha Mãe, achava que não, isso seria no fim. Felizmente que o meu avô paterno ainda era vivo e, com a calma e sabedoria dos seus muitos anos, lá conseguiu, que a escada começasse por baixo e aconselhou, “ – Primeiro, façam a estrutura, onde os degraus irão assentar, sempre de baixo para cima”. Assim foi, a estrutura, levou alguns anos a fazer, nem sempre a madeira era a indicada, outras vezes, as marteladas não eram certas. Vezes houve em que se teve de parar, porque, quer o meu Pai, quer a minha Mãe, erravam as tábuas, acertavam neles próprios, feriam-se e claro, era preciso dar tempo para se curarem. Depois, das feridas saradas, lá continuavam a construção da escada. Quando a estrutura ficou pronta, decidiram ir arranjar as tábuas para os degraus, a escolha da madeira não foi fácil, desde a textura, à espessura, comprimento e cor. Mais uma vez, surgiu o meu avô. “ – Arranjem tábuas fortes e à medida dos vossos pés, cuidado com as pisadelas, atenção ao sitio onde colocam as mãos, vejam se não deixem cair nada, que possa atingir quem estiver abaixo de vós e atenção à largura dos degraus, não os façam muito grandes, contem com o tamanho das vossas pernas e, como essa escada é para toda a vida, não façam degraus muito altos, nem muito longos, amanhã, podem não ter pernas para os subir. Apenas passem para o degrau seguinte, quando o anterior for devidamente seguro.” Assim fizeram, os degraus eram médios, as tábuas mais ou menos fortes. Nem todas, algumas quebravam-se logo no espetar dos pregos, outras à primeira pisadela, não suportavam o peso. Lembro que era o meu Pai que escolhia as tábuas, mas era a minha mãe que colocava os pregos, uns maiores, outros menores, mas todos com grande certeza, uniam claramente toda a estrutura, apesar de serem pregos, eram colocados com carinho e amor, e dava a sensação que a escada percebia. Ia-se tornando, forte, robusta e ao mesmo tempo doce e sensível. Cada vez que um prego era mal colocado, dava a sensação que chorava. Houve muitos pregos que foi necessário retirar. Um dia, quando a escada ia mais ou menos a meio, o meu avô, foi visitar a obra e, mais uma vez, parando a sucção do seu charuto de companhia, disse: “ – Não está má. Quer-me parecer que esta é a altura ideal para começar a colocar o corrimão.” O meu Pai, disse logo: “ – Não senhor. O corrimão será feito quando a escada estiver pronta.” Mais uma vez, o meu avô, naquele jeito de quem já tinha construído a sua escada, informou: “ – Esse é o maior erro. Em função da altura a que os degraus já estão, há que fazer o corrimão. Porque se te desequilibrares, sempre terás onde te agarrar.” Claro que uma vez mais, o conselho foi seguido. Vezes houve e não foram poucas, em que o corrimão deu grande jeito. O meu Pai, algumas vezes, saltava os apoios dos degraus e queria logo pôr três ou quatro mais a cima, do local onde deveria e logo se desequilibrava, ou porque as pernas não davam, ou porque a escada, ainda não tinha a segurança suficiente e lá vinha ele por ali a baixo, se não fosse o corrimão, tinha dado cada trambolhão. A verdade é que lá a construíram, os dois, com os conselhos do meu avô, claro. Quando ficou pronta, foram com todo o orgulho chamar o meu avô. “ – Então o que acha?” “ – Tem algumas imperfeições, há degraus menos bem colocados, há buracos de pregos nos sítios onde foi necessário retirar alguns pregos, tem algumas cavilhas, que nunca aceitaram todas as pancadas. Mas não está má. Agora, não se enganem. Escolham bem onde querem chegar e vejam se a apoiam na parede certa.” Eu, aqui estou e para chegar aqui, tenho utilizado a escada que eles construíram. Umas vezes utilizo-a para subir, outras para descer, ás vezes, quero subir muito depressa e tropeço, o que me vale é o corrimão. Enfim, é uma escada, que apesar de tudo, sempre teve a resistência que me permite utilizá-la, com toda a segurança…”      

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