“Ao Menos mais uma vez…”

     “Hoje acordei assim, virado para este lado. Quero partilhar convosco uma coisa.     

     – “Gostava de voltar a ser menino, pequenino, outra vez. Poder correr e saltar livremente, assim como quem sente que o mundo nos pertence, assim como quem não sabe que a vida dos grandes é tão chata e difícil. Poder correr atrás dos pardais, poder abraçar-me a todos os cães lá da rua, ás vezes apanhava umas pulgas e umas carraças, mas pronto, para além da comichão, o resto tudo passava e era tão bom.     

     Eram tão boas aquelas brincadeiras todas, com os meus amigos, o Zé Carlos, o Miguel, o Rui, e os outros todos.     

     Que saudades de brincar ás escondidas, aos índios e cowboys. Recordo que apesar de ser cá um índio, fazia quase sempre cowboy, com pistolas, espingardas e tudo.     

     Sabem? Quando era pequenino, fazia uns carrões todos bonitos, todos artilhados, com rolamentos que roubava lá do hóquei. Tinham luzes, guiador, travões, hó, hó, tinham tudo. Até tinham motor, as pernas e a força de outro amigo.     

     Era tudo tão bom.    

     Naquela altura fazíamos grandes jogatanas de hóquei em patins, sim sim, que eu sempre tive algum jeito para o hóquei, claro que ali jogávamos sem patins e as balizas, eram as sarjetas.     

     Nada nos parecia deter, em tudo acreditávamos.     

    No verão, como no nossos tempo não havia piscinas, íamos tomar banho para uns tanques, sempre com um olho no burro outro no cigano, a roupa, pouca, uns calçanitos e uma t-shirt sempre por perto, de vez em quando lá aparecia o dono:

     – “Ah, gaiatos dum raio!” E a gente? Ala que se faz tarde, hó pernas para que vos queremos. No caminho, ainda dava para roubar uma peçazita de fruta, pois pois, estávamos a crescer e a fruta fazia muita falta. Vitamina do quintal dos vizinhos.    

     Tudo do melhor.     

     Lembro-me que andava sempre com os joelhos feridos, eram quedas e mais quedas, e depois quando chegava a casa, para além das feridas e dos arranhões, ás vezes, e não eram poucas, a minha mãe ainda me chegava a roupa ao pêlo. Mas queria eu lá saber, até dessas palmadas tenho saudade.     

     Hoje aqui estou, vejo os miúdos aí pela rua, poucos, no meu tempo éramos bem mais, e sonho com esses tempos. Que inveja tenho deles, mas tenho também pena, porque sei que tudo aquilo um dia vais acabar e quando derem por isso, já tudo passou e aquela boa e feliz vida não volta mais.     

     Como trocava toda esta vida por uns minutos daquele tempo. Apetece-me para terminar dizer como o António Pinho:

     – “Tudo em grande em pequenino,

    Que eu só queria ser menino

    Ao menos mais uma vez…”  

2 comentários

  1. Ola!
    Ja me abituei a vesitar atua voz alta quase todos os dias, e hoje não resesti a comentar. Fizes-te-me recordar tambem a minha infancia a nossa vida era assim não tinha-mos o que as crianças de hoje tem, sabia-mos la nos o que era uma conçola ou coisa do genero. Tu dizes que fazias uns carrões bonitos, eu fazia vestidos para as bonecas com os trapitos que roubava à minha mãe, depois ja se sabia o que dava o roubo, umas palmadas mas mesmo tanto que gostava de voltar a ser criança.

  2. Como eram bons esses tempos. O tempo passado na rua em tantas brincadeiras, hoje poucos se vêem, é certo por serem menos, mas também porque cada um se fecha ne sua casa a jogar a sua consola o seu computador. O convívio, esse tão importante, que também nos fazia crescer para a vida, fica para depois. Quando, se calhar, já é tarde para se aprender a estar em socidade, a respeitar os outros, pois crescem só a olhar para si e a maior parte das vezes não olham para os outros como pares da vida, mas como inimigos do seu egoísmo… A São que tu conheces.


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