“Enquanto houver amanhã…”

           Hoje encontrei um pedinte numa esquina de Lisboa, a quem vou chamar “Francisco”.

         Em frente da esquina onde se encontrava havia um banco, sentei-me e fiquei ali a observá-lo, aproximei-me, cumprimentei-o, perguntei-lhe apenas para meter conversa, quem era e de onde era, respondeu-me assim:

         – “Deves ter muito a ver com isso, ou agora é preciso anunciarmos quem somos e onde nascemos para que nos dêem alguma esmola. Se queres dar dá, se não andor!”

         Quero-vos dizer que o “Francisco” era daqueles homens com uma luz, daqueles que transportam um brilho intenso, daqueles de quem gostamos logo à primeira.

         Não me dei por vencido e disse-lhe, em jeito de brincadeira:

         – “Olhe lá, o meu amigo é alentejano? E não se ofenda já porque eu também sou.”

         – “Ora alentejanos é o que há mais e parvos nem falar! Dá-me a merda da moeda ou não?

         – “Não. Convido-o para almoçar comigo, quer?”

         – “Quero, sempre vale mais que uma moeda. E acha que me vão deixar entrar assim num restaurante?”

         – “Acho que sim, ficamos numa esplanada qualquer.”

         Não demorou muito a encontrarmos uma esplanada, escolhemos o que queríamos comer e antes que lhe pudesse dizer, fosse o que fosse, ele começou a falar, agora já noutro tom:

         – “Você não sei quem é e também não deve querer nada de mim, já que nada tenho para lhe dar, a não ser metade do meu cartão de dormir debaixo de qualquer arcada.

         Pois olhe de facto sou alentejano, descobriu pela pronúncia não foi? Nunca se perde por mais sítios por onde andemos.

         Há muitos anos fui para França, lá casei, tive dois filhos mas um dia, encontrei a minha mulher com outro artista e, nem lhe disse nada, voltei para Portugal, sem nada, absolutamente sem nada.

         Não voltei à minha terra porque lá é tudo muito pequenino e tudo se sabe e diz e fala. E não estive para isso, aqui ainda tentei arranjar emprego, mas esteva numa fase de grande depressão e não me aguentava nos trabalhos mais de dois ou três dias e lá era despedido, só arranjava problemas.

         Escolhi esta vida, sempre é mais fácil, nada tenho mas também ninguém me chateia, talvez até pensem que morri. Às vezes é melhor assim, quando morremos passamos logo a ser bons rapazes, não é?

         Aqui vou vivendo, de vez em quando param assim uns como você, falam um bocadinho comigo, outras vezes aparecem aí umas senhoras todas bem-postas com grandes tangas, mas nada me interessa, esta foi a vida que escolhi até que a morte chegue. Sei que não tenho nada, mas se calhar sou mais feliz que muitos cheios de tudo, e cheios de nada. Para mim o que importa é haver amanhã.

         Um dia parou aqui um menino pequenino a falar comigo, quando a sua mãe reparou veio a correr buscá-lo e disse-lhe logo:

         – “Não te disse já para não falares com pessoas destas na rua.”

         Não percebi tudo o que ele lhe respondeu, mas consegui ouvir, já ao longe e lavado de lágrimas:

         – “Pode ser feio e estar sujo, mas já falei mais tempo com ele do que falo contigo e é bem mais feliz e simpático que tu.”

         A mãe deu-lhe uma bofetada, ele virou-se para traz, fez-me adeus e gritou-me lá de longe:

         – “Obrigado, um dia vou voltar para falar consigo, não saia desse lugar, espere sempre por mim, enquanto houver amanhã.”

         E vou-lhe contar que desde esse dia, e já passaram seguramente mais de vinte anos, nunca mais abandonei esta esquina.

Sei que jamais voltará e sei igualmente que nem se lembrará de mim, mas tenho vivido todos os dias com outra esperança, não numa vida melhor, mas de que vale apenas estar vivo e esperar pelo amanhã, nem que seja na ilusão de esperarmos por um amigo, que nunca mais voltará. Mas ao menos, guardarei para toda a vida, aqui neste sítio, uma criança que me ouviu e me achou feliz e simpático.”

– “Ouvi-o com tod` a atenção, e ainda bem que esperou, porque os verdadeiros amigos, esperam sempre por nós, pode levar muitos anos, mas esperam sempre, porque sabem que vamos voltar e que seria uma grande desilusão se já lá não estivessem. Obrigado por ter esperado, meu bom amigo, aqui estou a cumprir a promessa, esse menino, hoje feito homem, sou Eu…”

Liberdade – versus – Democracia

– “Chamo-me Margarida, tenho 94 anos e Sei que para muitos isto seria uma felicidade.

         Nasci em Liberdade, esta terra pequenina com pouco mais de dois mil habitantes, todos sempre nos conhecemos, todos sempre soubemos da vida uns dos outros e esse facto nunca nos incomodou muito.    

         As chaves das nossas casas sempre adormeceram e acordaram nas fechaduras, do lado de fora.

         Sempre entrámos nas casas uns dos outros e quantas vezes, sempre que alguém saía, entregava a chave a um dos vizinhos, tendo a certeza que a atenção e cuidados prestados seriam os melhores e que cada casa, apesar de não ser nossa, seria sempre tratada e cuidada como se da nossa se tratasse.

         Lembro que tinha uma laranjeira e uma macieira na frente da minha casa e que sempre que os ramos se estendiam para lá da imaginária linha do meu quintal, sim, porque não tínhamos muros, ou outra qualquer divisão senão a que o nosso olhar sabia ser nosso, lá aparecia um dos vizinhos, daqueles que entendia dessas coisas das árvores, a acertar as pernadas, a limpar os ramos, a deitar aqueles remédios para os bichos e tudo o mais. O pagamento era feito em troca, eu, como sempre tive muito jeito para as coisas do jardim, retribuía com as podas, os adubos e claro com a ternura das minhas mãos e lá ia alindando os quintais dos vizinhos.

         Quando ficávamos doentes, todos os dias lá aparecia alguém com um pratito de sopa, um cházito e toda a disponibilidade para arranjar os remédios necessários. Os mais velhotes ficavam nas suas casas e como as chaves moravam sempre nas portas, havia sempre quem aparecesse para tratar, para ajudar e para aquelas coisas importantes das conversas, ninguém se sentia só ou desacompanhado.

         Esta era uma terra linda, não havia espaço que não fosse de todos, e apesar de tudo, todos éramos felizes aqui, nesta nossa liberdade.

         Hoje, só já cá moro eu, daqueles do meu tempo claro.

         Há cerca de 20 anos, mudaram o nome há minha terra, hoje chamam-lhe Democracia.

Talvez seja da minha idade, mas nunca percebi porque lhe mudaram o nome.

Uma vez, recebi na minha casa o Sr. Presidente da freguesia, disse-me que era muito importante que a nossa terra mudasse de nome. Porque Liberdade não era um nome muito adequado, pressupunha abuso e dava a ideia de que aqui não havia regras. Democracia era bem mais sonante e bonito e assim cada um poderia dar a sua opinião, intervir, ser voz activa. Disse-me que cada um poderia ser livre de pensamento e formar opinião, falou-me em algo que ainda hoje não entendo bem, “massa critica”, explicou-me que as pessoas mais importantes, se juntas e com ideais comuns, poderiam lutar e contribuir para uma vida cada vez melhor.

Explicou-me igualmente que não poderia continuar a deixar a chave do lado de fora e que também não fazia sentido guardar a casa dos vizinhos e que cada um, deveria tratar das suas próprias coisas e que assim é que estava correcto. Sugeriu-me igualmente que cada um deveria construir muros a delimitar os seus terrenos. Era importante que cada marcasse e tratasse do que era seu, para não haver problemas. Era uma questão de responsabilidade.       

         Tenho que confessar que era um homem de belíssima aparência, utilizava palavras muito bonitas, algumas mesmo que nunca tinha ouvido. Era doutor, formado lá p`ra cidade grande em economias ou lá o que era isso, coisas dos números e dos dinheiros. Fazia contas muito bem, e tinha perfeita noção do caminho a seguir para que a nossa antiga e pequena Liberdade se tornasse numa grande Democracia.

         Os anos passaram, hoje vejo aquele Sr. presidente muitas vezes na televisão, tornou-se um homem muito importante, do governo. Há dias escrevi-lhe uma carta e sei que nunca me responderá mas ao menos morro de consciência tranquila, querem saber o que lhe disse? Aqui Vai:

         – “Sr. Presidente, vejo hoje com muito orgulho que chegou longe. Não tenho duvidas que percebe muito dos tais números de que me falou aqui em casa e devo confessar-lhe que cada vez fala melhor embora com palavras que cada vez entendo menos.

         Não queria morrer sem lhe agradecer o que fez pela nossa terra, lembra-se? Esta que era Liberdade e que o Sr. mudou para Democracia, esta que o Sr. me disse que ainda haveria de ser um grande terra.

         Tenho que lhe confessar que tinha toda a razão, hoje é enorme, tão grande que hoje não moram cá mais de quinhentas pessoas.

         Também segui o seu conselho e tirei a chave da porta, assim das duas vezes em que fui assaltada os ladrões tiveram mais trabalho, entraram pelas janelas e tiveram que partir os vidros e tudo. Da última vez bateram-me, quase até à morte, vá lá que ainda tive forças para rastejar até à rua, fartei-me de gritar, mas foram horas terríveis, ninguém me ouvia, sabe! Aqueles muros que o Sr. e bem nos aconselhou a construir? Tem sido muito úteis, os meus vizinhos do lado, aqueles mais novos que o Sr. andou a pedir para virem para cá, construíram um muro todo bonito, com umas chapas altas e tudo, nunca os vi nem sei quem são, a sorte foi o carteiro, que felizmente ainda por aqui passa.

         Sr. Presidente, aquela sua ideia de que cada um deveria tomar conta das suas coisas também resultou em pleno. As minhas árvores, hoje estão lindas, os ramos estendem-se hoje orgulhosamente já pela estrada e já se abraçaram nas dos vizinhos que entretanto também já me enfeitam o quintal. E os canteiros, lembra-se aqueles de onde me roubou uma rosa ao sair quando me visitou? Estão lindos cheios de ervas e picos.

         Querido Sr. presidente, estou muito feliz por tudo quanto fez, até este Lar de onde hoje lhe escrevo me recebeu. Tive que deixar tudo, a minha casa, os meus animais, a minha vida e sabe porquê? Porque a grande Liberdade que o Sr. transformou em Democracia tornou-se grande de facto, mas em ódio e solidão. Desumanizou as nossas vidas a custo de uma evolução de números e betão. Como o Sr. é cá da terra, pode ser que um dia, assim já velhinho como eu, o acabem por depositar neste lar que inaugurou com tanto orgulho.

         Já agora Sr. Presidente, quando eu morrer não venha ao meu funeral, nem traga os meus netos que nunca me apresentou.

 Ainda assim consegui concordar com uma das ideias das mudanças de que tanto me falava, sabe? Deixei de me chamar Margarida Oliveira, hoje sou só Margarida, tenho medo que alguém perceba, que foi esta que um dia te pariu, numa maravilhosa e feliz Liberdade que acabaste por transformar numa triste e miserável Democracia…”

“O pacote da vida…

     “Quando as forças te faltarem para enfrentares os dias com a coragem, firmeza e esperança, não te entregues.

     Pensa que há de certeza muitos e muitas que estão pior que tu.

     Todos nós temos tendência a considerar que os nossos problemas são os maiores, os mais difíceis.

     Todos nós achamos que a nossa vida é sempre a mais difícil.

     Quantas vezes nos encontramos, ou pelo menos eu encontro-me, a perguntar a Deus, porquê? Porquê Meu deus? Porquê a mim? Porque tem a minha vida que ser isto? Sempre sonhei com uma vida simples, mas feliz, em que tivesse o mínimo para mim e para os meus. Porquê meu Deus? Diz-me onde falhei! Diz-me o que posso fazer! Acende-me uma luz, mesmo pequenina que seja, mas que me permita colocar no trilho a minha vida. Mostra-me meu deus, que esta luz fosca que hoje me enche os olhos e me turva a vista é passageira e que ainda vou a tempo.

     Nada tenho contra que alguns se entreguem a Deus com estas dúvidas, e que procurem nele as respostas para a sua menos conseguida e feliz vida. O que me preocupa de facto, não são as duvidas e perguntas, é a resignação perante as amarguras e desventuras, é o baixar dos braços e deixar de acreditar.

     Julgo que o discurso que todos deveremos por nos dias, mesmo nos mais tristes, não é o questionarmos os Deuses sobre as nossas desventuras. Mas questioná-lo sobre o caminho a seguir, gritar-lhe abertamente e sem medos para que torne aquela fraca luz, num facho ardente de esperança e força. Dizer-lhe sem rodeios que a matéria de que somos feitos é rija que nem aço e que a fé que temos é o suporte e alimento para a coragem que jamais nos faltará. O caminho encontra-se sempre à nossa frente, nunca está percorrido ou finalizado. Qualquer caminho é sempre um princípio, partamos de onde partamos.

     Na nossa vida todas as perguntas e dúvidas são legítimas e fazem sentido. Na nossa vida todas as dificuldades e reveses existem e são uma constante nos dias. Nas nossas vidas tudo, mesmo tudo é possível acontecer, porque ao nascer, sem dúvidas, nos é entregue pelos nossos pais um manual que contém todas as fórmulas a utilizar, no processo da construção da vida. Apenas há uma fórmula que nunca foi colocada no pacote da nossa vida, a fórmula da derrota. Essa não nos é entregue porque não faz parte das fórmulas de Deus, infelizmente, fomos e somos nós que a vamos inventando a cada hora, derrotando a nossa vidas e a dos outros. Ainda assim, felizmente, ainda há quem vá igualmente inventando em cada dia o antídoto, para o veneno que teimamos derramar no nosso caminho e no dos outros…”

“Outra história da carochinha…”

“Hoje quero falar-vos das coisas boas da vida. Da felicidade que é estar vivo e poder apreciar tudo quanto esta nossa passagem nos permite.

     Talvez seja mais fácil prendermo-nos à desventura, e baixarmos a cabeça para que os outros não vejam que os nossos olhos estão cheios de lágrimas, pela falta de esperança no viver dos dias.

     Viver e ser feliz é fácil. Muitas vezes é uma questão de atitude, se não, vejamos esta história:

     “Há muitos anos, duas carochinhas encontraram-se, uma muito feliz e contente, outra muito triste e chorosa. A mais infeliz virou-se para a sua companheira e perguntou-lhe:

     – “Olha tu, amiga margarida – vamos chamar-lhe assim, porque andas sempre tão feliz?”

     – “Porque me apetece simplesmente”

     Respondeu a outra.

     – “Então e isso é lá coisa de apetecer? A vida não está boa, quase não temos de comer, e tu dizes-me que és feliz apenas porque te apetece!

     – “Claro, e tu só não és porque não queres. Eu tenho os mesmos problemas que tu tens, só que não passo a vida a pensar neles.

     De manhã acordo e aproveito logo o facto de ainda estar viva, depois, quer chova ou faça sol, espreguiço-me toda e vou á procura de alguma coisa para comer. No meu caminho cumprimento tudo e todos. Se encontrar muita comida como mais, se encontrar pouca, como menos. Em vez de me lamentar, apenas penso que assim, não comendo tanto, até acabo por ficar mais elegante e com sorte ainda aparece por ai alguma carochinha macho e se apaixona por mim.

     Mais, se estiver sol, sempre aproveito para me bronzear um bocadinho, se estiver a chover, aproveito e tomo um bom banho.

    Ou seja amiga carochinha triste: – muitas vezes andamos tristes sem razão e sem porquê. Andamos tristes porque nada nos agrada. Andamos tristes porque não sabemos tirar partido pela positiva de tudo quanto a vida nos dá. Cá para mim é assim. Hoje acordei, estou viva, óptimo, agora é só ir por aí. Se for triste de nada me vale, nada vou conseguir ou melhorar na minha vida por andar por aí a choramingar. Pelo contrário, se andar de sorriso nos lábios, até posso não melhorar nada, mas ao menos não me martirizo nem martirizo a vida dos outros.

     Todos os dias e tudo na vida é perfeito, tudo o que acontece até mesmo a morte é perfeita, é a ordem natural das coisas.

     Passamos a vida a desejar o melhor para as nossas vidas, desejamo-la e sonhamo-la de forma perfeita sem perceber que as imperfeitas somos nós, porque na maioria das vezes, teimamos em não encaixar na perfeição da vida…”

    

“O Sal da Vida…”

     “Já não sei onde nem quando, mas um dia dei por mim a pensar na dificuldade de viver e tudo isto apenas por se nascer.

     Quando os nossos pais decidiram, ou não, que iriam ter um filho, não o encomendaram por nenhum catálogo, não escolheram concerteza características, estilo de vida, virtudes ou defeitos. Apenas o conceberam e desejaram que a vida que viesse a ter fosse a melhor. Quer por tudo aquilo que lhes pudessem proporcionar, quer na sorte e saúde ambicionadas para que essa nova vida fosse o mais feliz possível.

     Há quem defenda que – “O sal da vida são os bons e pequenos momentos em que não existem dificuldades em que tudo corre pelo melhor, em que não há problemas e a vida se compara a uma rosa, com uma diferença substancial. Sem espinhos”.

     Eu lamento, mas não concordo nada com esta ideia, muito pelo contrario.

     Para mim “O Sal da Vida” é precisamente o oposto. Rosas sem espinhos? Vida sem dificuldades? Tudo a correr pelo melhor? Lamento mas não. Em absoluto.

     Nós seres humanos somos dotados de uma inteligência incrível, todos sem excepção, é claro que uns trabalhá-la-ão mais, esforçar-se-ão mais. Terão uns eventualmente mais instrumentos ao seu dispor, mais facilidades. Poderão igualmente outros, estar mais próximos do conhecimento, ter pela força de outras vidas, outras oportunidades, mas – “O sal da vida são as dificuldades, são os espinhos das rosas, são os problemas.

     Apenas apreciamos a rosa porque esta tem espinhos, temos que tratá-la com cuidado, temos que cheirá-la a uma certa distancia, temos que perceber onde colocamos as mãos se a queremos acariciar, temos que perceber que toda aquela beleza e perfume só existem naquela planta porque a natureza a dotou daquelas características, para poder ser tudo aquilo que é, se não, não seria uma rosa, seria uma malva ou outra flor qualquer. Poderia ter o mesmo encanto, mas não tinha o mesmo fascínio. Gostamos das rosas porque para além da cor e do cheiro também têm espinhos. Porque para além da beleza também possuem instrumentos de defesa.

     “O Sal da Vida” está com toda a certeza, pelo menos para mim, nas dificuldades, nos problemas, nas tristezas, nos desencantos. Hoje sabemos o que somos e o que valemos, porque aqueles que nos antecederam tiveram a coragem, a força e o arrojo de não se fecharem no choro e na inércia. Porque aqueles que nos antecederam, puseram mãos à obra quando foi preciso vencer doenças, arregaçaram mangas quando foi necessário fazer pontes, barcos carros e tantas coisas mais.

     Como posso saber o que valho e onde posso chegar se a vida apenas se me apresentar como uma orquídea? Apenas vestida de perfume e beleza, sem os espinhos das rosas!

     Não, isso não é viver. É passar por cá sem ter percebido o quanto valemos, do quanto somos capazes.

     Todas as dificuldades são ultrapassáveis, todos os problemas são resolúveis.

     Deus deu-nos tantos problemas e tantas dificuldades, porque igualmente nos deu tantos talentos e capacidades.

     O problema, é que alguns preferem ser malvas, com alguma beleza e algum cheiro. Outros decididamente, preferem ser rosas, com mais beleza e melhor perfume, alcançados com maior luta e obstinação. Com feridas e ferindo, utilizando os espinhos, enfrentando outros espinhos, mas, acima de tudo, percebendo que só são hoje o que são e podem saborear cada momento de prazer, porque o fizeram à custa da vitória sobre as dificuldades.

    Viver e ser feliz, só é possível e entendível na sua verdadeira acessão, por aqueles que perceberam e viveram todos os problemas e dificuldades, na sua verdadeira acessão…”  

 

 

 

 

“Lições de Deus…”

     – “Tenho que confessar que hoje não me estava a apetecer escrever. Acreditem que nem sempre é fácil conseguir colocar aqui neste espaço e no papel um pensamento com lógica e que como todos os que aqui já vos trouxe, possa espelhar a minha forma de estar e ser perante diferentes assuntos, ou melhor, perante os assuntos que nos enchem a vida, de alegria e tristeza, de verdade e mentira, de vida e morte de, de ,de…

     Hoje recebi o texto do António Sala, que irá servir de  prefácio ao livro “Em Voz Alta”, que vos irei apresentar no dia 1 de Maio, se Deus quiser, e fiquei a pensar nas diferentes formas que Deus escolhe para chegar até nós, para nos ensinar.

     Quero partilhar convosco que acho o texto espectacular, não por estúpida vaidade, ou achá-lo assim tão bom por ser um texto a falar de mim. Não. Ainda não cheguei a esse estado de pura parvoeira de me encher de presunção e achar-me uma grande coisa, não, nada disso. Acho o texto absolutamente extraordinário pela forma como Deus, e é bom lembrar-vos que sou católico assumido e praticante tanto quanto o possível, mas dizia eu, como Deus chega até nós. Um homem da dimensão do António Sala, sem sombra de duvidas o maior comunicador que Portugal até agora conheceu, ter a humildade de aceitar escrever umas linhas sobre mim, e ele, sim, que é enorme, despir-se de tudo e referir-se a mim da forma que o faz, só pode ser mais uma lição de Deus. Há muito que penso e cada vez mais essa é uma realidade presente na minha vida, que as pessoas grandes, são todas tão pequenas, são tão simples e humildes. Ás vezes vejo uns quantos, inchados de nada, que se julgam tão importantes por coisa nenhuma. Passam a vida a pisar os outros. Vestidos de estúpida vaidade e prepotência, julgando que Deus nos dá o Sol , porque eles o possuem e apenas nos concedem uns poucos raios da sua maravilhosa luz, porque ainda assim a luz é tanta e tão forte, que eles nos emprestam um bocadinho para vivermos. Há uma expressão que cada vez gosto mais de utilizar. “Todos os homens grandes são simples e humildes, também o não seriam se assim não fossem.”

     Quero hoje agradecer a Deus pelas diferentes formas que tem escolhido para me ensinar. Sei que nem sempre tive a capacidade e outras vezes a humildade para perceber de que forma ele tem chegado até mim, mas espero igualmente que ele continue a enviar-me estas lições e que cada vez mais eu as consiga perceber e que as consiga aplicar no meu dia a dia, e assim possa, a pouco e pouco ir ganhando o céu. Porque a terra, essa, jamais a conquistarei. Foi-me, e a todos nós, emprestada para a nossa passagem, pena que alguns julguem que ela é sua e de forma perfeitamente estúpida façam da vida dos outros um verdadeiro calvário, sem perceberem que a sua maravilhosa vida e importância apenas os conduz ao inferno.

      Muito obrigado meu deus por mais esta lição ” Ser grande não é viver deslumbrado com a nossa inchada importância. Ser grande é partilhar nos dias o ar que permita aos outros crescer tanto como nós…”

“O silêncio dos bons…””

“Há frases que um dia lemos e que nos marcam irremediavelmente para toda a vida.     

     Há dias recebi um e-mal com uma história que terminava com uma afirmação tremendamente verdadeira “Não me preocupa a gritaria dos maus, o que me preocupa é o silêncio dos bons”.     

     Tenho desde esse dia andado a pensar que esta afirmação daria um bom texto, aqui para a minha voz alta. É que esta é uma verdade impressionante, quantos de nós não sentimos já que há gritos que não nos afectam nada e que por outro lado há silêncios que tanto nos incomodam.     

     Há quem passe a vida a gritar julgando assim, por um lado, impressionar os outros e por outro criar algum medo. Normalmente os gritos vêm de quem poucos ou nenhuns argumentos tem e pior que isso, muito pior muitas vezes, vêm de quem não tem razão nenhuma e apenas são lançados para o ar com o fim de mostrar quem os põe na voz e têm o claro objectivo de destruir. Por maldade, por ignorância ou apenas por má fé. Ainda assim na grande parte das vezes, depois da algazarra, nada fica, ou apenas fica a sensação de que daquela gritaria nada resultou ou ficou para além do incómodo inicial. Até porque quem muito grita, pouco se houve e pouco se faz ouvir. Por outro lado, há gente muito boa que opta viver em silencio ou apenas dando opinião quando lhe é pedida. Vivem com a constante intenção de respeitar e não magoar os outros. Calam sentimentos de revolta muitas vezes, porque sabem que ao darem a sua opinião serão levados em conta e com isso poderão estar a ajudar a formar opinião, e sendo esta contrária aos seus inicias locutores criará agitação e mau estar.     

     Tudo isto estaria certo se estas pessoas dotadas de bom senso e inteligência não optassem sempre por este silencio e é aqui que me afasto delas e faço a ponte para a minha citação inicial é que há silêncios demasiado caros. Há gente que sofre porque aqueles que deveria falar se calam consentido que a gritaria dos sem razão se imponha. Há quem tenha muitas responsabilidades e opta por se escudar na falta de palavras e opinião contribuindo assim para a possibilidade das injustiças.     

     Dos bons espera-se uma voz presente e activa, dos bons espera-se a palavra certa na libertação dos oprimidos. Dos bons espera-se sempre tudo, mas nunca se deveria esperar ou desejar o silêncio, uma vez que calar pode ser tão violento como gritar, com alguma diferença: Quem grita, apenas o faz por não ter razão. Quem é bom e cala, está decisivamente a contribuir para o mau estar dos outros. Os maus, por mais que gritem, ninguém os ouve. Em contrapartida os bons, por mais que se calem ninguém os deixará de ouvir…”