Liberdade – versus – Democracia

– “Chamo-me Margarida, tenho 94 anos e Sei que para muitos isto seria uma felicidade.

         Nasci em Liberdade, esta terra pequenina com pouco mais de dois mil habitantes, todos sempre nos conhecemos, todos sempre soubemos da vida uns dos outros e esse facto nunca nos incomodou muito.    

         As chaves das nossas casas sempre adormeceram e acordaram nas fechaduras, do lado de fora.

         Sempre entrámos nas casas uns dos outros e quantas vezes, sempre que alguém saía, entregava a chave a um dos vizinhos, tendo a certeza que a atenção e cuidados prestados seriam os melhores e que cada casa, apesar de não ser nossa, seria sempre tratada e cuidada como se da nossa se tratasse.

         Lembro que tinha uma laranjeira e uma macieira na frente da minha casa e que sempre que os ramos se estendiam para lá da imaginária linha do meu quintal, sim, porque não tínhamos muros, ou outra qualquer divisão senão a que o nosso olhar sabia ser nosso, lá aparecia um dos vizinhos, daqueles que entendia dessas coisas das árvores, a acertar as pernadas, a limpar os ramos, a deitar aqueles remédios para os bichos e tudo o mais. O pagamento era feito em troca, eu, como sempre tive muito jeito para as coisas do jardim, retribuía com as podas, os adubos e claro com a ternura das minhas mãos e lá ia alindando os quintais dos vizinhos.

         Quando ficávamos doentes, todos os dias lá aparecia alguém com um pratito de sopa, um cházito e toda a disponibilidade para arranjar os remédios necessários. Os mais velhotes ficavam nas suas casas e como as chaves moravam sempre nas portas, havia sempre quem aparecesse para tratar, para ajudar e para aquelas coisas importantes das conversas, ninguém se sentia só ou desacompanhado.

         Esta era uma terra linda, não havia espaço que não fosse de todos, e apesar de tudo, todos éramos felizes aqui, nesta nossa liberdade.

         Hoje, só já cá moro eu, daqueles do meu tempo claro.

         Há cerca de 20 anos, mudaram o nome há minha terra, hoje chamam-lhe Democracia.

Talvez seja da minha idade, mas nunca percebi porque lhe mudaram o nome.

Uma vez, recebi na minha casa o Sr. Presidente da freguesia, disse-me que era muito importante que a nossa terra mudasse de nome. Porque Liberdade não era um nome muito adequado, pressupunha abuso e dava a ideia de que aqui não havia regras. Democracia era bem mais sonante e bonito e assim cada um poderia dar a sua opinião, intervir, ser voz activa. Disse-me que cada um poderia ser livre de pensamento e formar opinião, falou-me em algo que ainda hoje não entendo bem, “massa critica”, explicou-me que as pessoas mais importantes, se juntas e com ideais comuns, poderiam lutar e contribuir para uma vida cada vez melhor.

Explicou-me igualmente que não poderia continuar a deixar a chave do lado de fora e que também não fazia sentido guardar a casa dos vizinhos e que cada um, deveria tratar das suas próprias coisas e que assim é que estava correcto. Sugeriu-me igualmente que cada um deveria construir muros a delimitar os seus terrenos. Era importante que cada marcasse e tratasse do que era seu, para não haver problemas. Era uma questão de responsabilidade.       

         Tenho que confessar que era um homem de belíssima aparência, utilizava palavras muito bonitas, algumas mesmo que nunca tinha ouvido. Era doutor, formado lá p`ra cidade grande em economias ou lá o que era isso, coisas dos números e dos dinheiros. Fazia contas muito bem, e tinha perfeita noção do caminho a seguir para que a nossa antiga e pequena Liberdade se tornasse numa grande Democracia.

         Os anos passaram, hoje vejo aquele Sr. presidente muitas vezes na televisão, tornou-se um homem muito importante, do governo. Há dias escrevi-lhe uma carta e sei que nunca me responderá mas ao menos morro de consciência tranquila, querem saber o que lhe disse? Aqui Vai:

         – “Sr. Presidente, vejo hoje com muito orgulho que chegou longe. Não tenho duvidas que percebe muito dos tais números de que me falou aqui em casa e devo confessar-lhe que cada vez fala melhor embora com palavras que cada vez entendo menos.

         Não queria morrer sem lhe agradecer o que fez pela nossa terra, lembra-se? Esta que era Liberdade e que o Sr. mudou para Democracia, esta que o Sr. me disse que ainda haveria de ser um grande terra.

         Tenho que lhe confessar que tinha toda a razão, hoje é enorme, tão grande que hoje não moram cá mais de quinhentas pessoas.

         Também segui o seu conselho e tirei a chave da porta, assim das duas vezes em que fui assaltada os ladrões tiveram mais trabalho, entraram pelas janelas e tiveram que partir os vidros e tudo. Da última vez bateram-me, quase até à morte, vá lá que ainda tive forças para rastejar até à rua, fartei-me de gritar, mas foram horas terríveis, ninguém me ouvia, sabe! Aqueles muros que o Sr. e bem nos aconselhou a construir? Tem sido muito úteis, os meus vizinhos do lado, aqueles mais novos que o Sr. andou a pedir para virem para cá, construíram um muro todo bonito, com umas chapas altas e tudo, nunca os vi nem sei quem são, a sorte foi o carteiro, que felizmente ainda por aqui passa.

         Sr. Presidente, aquela sua ideia de que cada um deveria tomar conta das suas coisas também resultou em pleno. As minhas árvores, hoje estão lindas, os ramos estendem-se hoje orgulhosamente já pela estrada e já se abraçaram nas dos vizinhos que entretanto também já me enfeitam o quintal. E os canteiros, lembra-se aqueles de onde me roubou uma rosa ao sair quando me visitou? Estão lindos cheios de ervas e picos.

         Querido Sr. presidente, estou muito feliz por tudo quanto fez, até este Lar de onde hoje lhe escrevo me recebeu. Tive que deixar tudo, a minha casa, os meus animais, a minha vida e sabe porquê? Porque a grande Liberdade que o Sr. transformou em Democracia tornou-se grande de facto, mas em ódio e solidão. Desumanizou as nossas vidas a custo de uma evolução de números e betão. Como o Sr. é cá da terra, pode ser que um dia, assim já velhinho como eu, o acabem por depositar neste lar que inaugurou com tanto orgulho.

         Já agora Sr. Presidente, quando eu morrer não venha ao meu funeral, nem traga os meus netos que nunca me apresentou.

 Ainda assim consegui concordar com uma das ideias das mudanças de que tanto me falava, sabe? Deixei de me chamar Margarida Oliveira, hoje sou só Margarida, tenho medo que alguém perceba, que foi esta que um dia te pariu, numa maravilhosa e feliz Liberdade que acabaste por transformar numa triste e miserável Democracia…”

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