“Enquanto houver amanhã…”

           Hoje encontrei um pedinte numa esquina de Lisboa, a quem vou chamar “Francisco”.

         Em frente da esquina onde se encontrava havia um banco, sentei-me e fiquei ali a observá-lo, aproximei-me, cumprimentei-o, perguntei-lhe apenas para meter conversa, quem era e de onde era, respondeu-me assim:

         – “Deves ter muito a ver com isso, ou agora é preciso anunciarmos quem somos e onde nascemos para que nos dêem alguma esmola. Se queres dar dá, se não andor!”

         Quero-vos dizer que o “Francisco” era daqueles homens com uma luz, daqueles que transportam um brilho intenso, daqueles de quem gostamos logo à primeira.

         Não me dei por vencido e disse-lhe, em jeito de brincadeira:

         – “Olhe lá, o meu amigo é alentejano? E não se ofenda já porque eu também sou.”

         – “Ora alentejanos é o que há mais e parvos nem falar! Dá-me a merda da moeda ou não?

         – “Não. Convido-o para almoçar comigo, quer?”

         – “Quero, sempre vale mais que uma moeda. E acha que me vão deixar entrar assim num restaurante?”

         – “Acho que sim, ficamos numa esplanada qualquer.”

         Não demorou muito a encontrarmos uma esplanada, escolhemos o que queríamos comer e antes que lhe pudesse dizer, fosse o que fosse, ele começou a falar, agora já noutro tom:

         – “Você não sei quem é e também não deve querer nada de mim, já que nada tenho para lhe dar, a não ser metade do meu cartão de dormir debaixo de qualquer arcada.

         Pois olhe de facto sou alentejano, descobriu pela pronúncia não foi? Nunca se perde por mais sítios por onde andemos.

         Há muitos anos fui para França, lá casei, tive dois filhos mas um dia, encontrei a minha mulher com outro artista e, nem lhe disse nada, voltei para Portugal, sem nada, absolutamente sem nada.

         Não voltei à minha terra porque lá é tudo muito pequenino e tudo se sabe e diz e fala. E não estive para isso, aqui ainda tentei arranjar emprego, mas esteva numa fase de grande depressão e não me aguentava nos trabalhos mais de dois ou três dias e lá era despedido, só arranjava problemas.

         Escolhi esta vida, sempre é mais fácil, nada tenho mas também ninguém me chateia, talvez até pensem que morri. Às vezes é melhor assim, quando morremos passamos logo a ser bons rapazes, não é?

         Aqui vou vivendo, de vez em quando param assim uns como você, falam um bocadinho comigo, outras vezes aparecem aí umas senhoras todas bem-postas com grandes tangas, mas nada me interessa, esta foi a vida que escolhi até que a morte chegue. Sei que não tenho nada, mas se calhar sou mais feliz que muitos cheios de tudo, e cheios de nada. Para mim o que importa é haver amanhã.

         Um dia parou aqui um menino pequenino a falar comigo, quando a sua mãe reparou veio a correr buscá-lo e disse-lhe logo:

         – “Não te disse já para não falares com pessoas destas na rua.”

         Não percebi tudo o que ele lhe respondeu, mas consegui ouvir, já ao longe e lavado de lágrimas:

         – “Pode ser feio e estar sujo, mas já falei mais tempo com ele do que falo contigo e é bem mais feliz e simpático que tu.”

         A mãe deu-lhe uma bofetada, ele virou-se para traz, fez-me adeus e gritou-me lá de longe:

         – “Obrigado, um dia vou voltar para falar consigo, não saia desse lugar, espere sempre por mim, enquanto houver amanhã.”

         E vou-lhe contar que desde esse dia, e já passaram seguramente mais de vinte anos, nunca mais abandonei esta esquina.

Sei que jamais voltará e sei igualmente que nem se lembrará de mim, mas tenho vivido todos os dias com outra esperança, não numa vida melhor, mas de que vale apenas estar vivo e esperar pelo amanhã, nem que seja na ilusão de esperarmos por um amigo, que nunca mais voltará. Mas ao menos, guardarei para toda a vida, aqui neste sítio, uma criança que me ouviu e me achou feliz e simpático.”

– “Ouvi-o com tod` a atenção, e ainda bem que esperou, porque os verdadeiros amigos, esperam sempre por nós, pode levar muitos anos, mas esperam sempre, porque sabem que vamos voltar e que seria uma grande desilusão se já lá não estivessem. Obrigado por ter esperado, meu bom amigo, aqui estou a cumprir a promessa, esse menino, hoje feito homem, sou Eu…”

2 comentários

  1. Pois é esse menino hoje feito homem, tem grandes amigos que mesmo nesta cidade pequena mas que para ele tem sido grande e esse pedinte que um dia encontrou numa esquina de Lisboa, seja Jesus Cristo, que o acompanha a cada esquina da sua vida! Mais uma Graça esse pedinte lhe concedeu com o lançamento do seu livro ” Em Voz Alta” um sonho tornado realidade. Parabéns! Que esse pedinte te acompanhe a cada esquina da tua vida e certamente terás muitas esquinas ainda a percorrer!…
    Cândida.

  2. Pois é! esse menino que hoje é um homem não em tamanho, mas e tenho a certeza que é grande em coraçao e bom, isso tenho a certeza. sabedor isso não tenho dúvidas, tudo quanto faz é bem feito, luta por tudo aquilo que quer e vence, nunca o vi cruzar os braços ás dificuldades, e quantas ele tem tido perdeu o pai cedo, a seguir o irmão, mas ele é corajozo e Deus ajuda-o a vencer.
    Hoje lançiu a sua voz alta, nervoso como nunca o tinha visto, o motivo não era para menos, esta abituado lançar cds e não livros, Deus dei-lhe deu-lhe tambem esse dom e ele soubi-o aproveitar, e muito bem. Estou feliz por ti isso estou, muito feliz, numa altura da minha vida, em que perdi amigos em quem confiava estes teus textos e os teus fados dão-me força, muita força. Obrigado bem ajas. Florinda.


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