“Indignação…”

       “Hoje venho de uma forma diferente a esta minha rubrica e a este meu espaço, desde sempre disse que aqui traria a minha forma de estar, de ser, de pensar, e que o faria de acordo com a minha consciência. Tenho procurado fazê-lo sempre dessa forma, uma vezes com resultados melhores outras nem por isso, mas sempre com a consciência de que o faço de acordo com aquilo em que acredito, por isso irei chamar hoje à minha “Voz Alta”, “Indignação…”

         Na sexta-feira dia 9 de Maio, participei no programa “Sexta à noite”, apresentado pelo José Carlos Malato. Quando se estava a preparar o programa, surgiu por parte da produtora, o convite para que pudesse estar no programa uma representação da cidade de Estremoz, contactei a Câmara Municipal, na pessoa do seu presidente Dr. José Alberto Fateixa, que de pronto disponibilizou um autocarro para que a cidade de Estremoz pudesse então estar representada. No programa que diariamente apresento, na Rádio Despertar, lancei o desafio, e no final do programa já não havia lugares, mais, se 3 ou 4 autocarros houvesse, rapidamente se tinham enchido, tal não foi a procura da boa gente de Estremoz interessada em ir assistir ao programa.

         Neste programa, “Sexta à noite”, estão semanalmente, e devo dizer que as marcações são realizadas com muitas semanas de antecedência, representadas quase todas as cidades, vilas e aldeias de Portugal e o difícil é mesmo encontrar vaga para se poder assistir em directo ao programa.

         Meus amigos, foi fantástica a representação da cidade de Estremoz, foi uma alegria ver aqueles 50 amigos a torcer pela nossa terra, tantas vezes esquecida, tantas vezes fora do mapa. Mas desta vez não. Que bom foi ver por exemplo o cachecol do nosso Clube de futebol de Estremoz, que bom foi ver durante todo o programa o bonequinho de barro das Irmãs Flores e a referencia à barrística de Estremoz na mesa do Malato, que bom, mas que bom mesmo foi ouvir, inúmeras vezes a referencia à boa gente de Estremoz presente, e pelo menos uma vez estivemos cerca de duas horas, num dos principais programas a ser mostrados e falados.

         Bom, mas eu disse que hoje este meu texto tinha o título de “Indignação…” é verdade, e sabem porquê? Porque pasme-se, na última reunião de Câmara, alguém foi questionar sobre a utilidade de tal participação, sobre as vantagens para a nossa terra, sobre a necessidade de se ter disponibilizado o autocarro, que mais valia representava esta participação para a cidade de Estremoz?

         Eu confesso que perante tal quadro me recuso a responder, mas remeto a resposta para aqueles que foram, para aqueles que não puderam ir e se inscreveram na mesma, na esperança de alguma desistência, para os e-mails e telefonemas que recebi em directo na rádio, para as manifestações de carinho que fui recebendo ao longo dos dias em todos os locais da cidade por onde fui passando:

         – “Que bom, finalmente Estremoz foi falada na televisão, que bom foi ver a nossa gente ser lembrada…”

         Por mim aqui fica o meu muito obrigado ao executivo, despido de qualquer intenção politica, na pessoa do seu presidente Dr. José Alberto Fateixa, um minuto em televisão custa fortunas e nós, ali estivemos cerca de duas horas a representar a nossa querida cidade de Estremoz, de borla, obrigado querido amigo José Carlos Malato que tão bem defendes o nosso Alentejo e que tanto e bem falaste da cidade de Estremoz.

         Fecho assim, sem medos, é por estas e por outras que uns, de forma natural, vão vencendo na vida e alcançando os seus objectivos, muitas vezes logo à primeira, e que outros, por mais vezes que se tentem impor, nunca e nada ganharão.

         Lá diz o outro:

“A  pequenez de uns, é a grandeza de outros…”

“O pequeno pescador e a sua foca…”

        “Há muitos anos no Alasca, vivia um menino pequenino, todas as manhãs saía cedo de casa para pescar, tinha apenas uma vara que servia de cana, algumas poucas sardinhas, para servir de isco, e um fio com um anzol na ponta.

        Quando saía todos os dias se dirigia a um pequeno monte de gelo, apenas para olhar para o céu e, lá na sua língua, dizia qualquer coisa para os céus. A sua mãe sempre observou este ritual, mas nunca o questionou, apenas observava e mantinha-se à porta até àquela linha, onde os seus olhos perdiam a pequena figura, do pequeno Hyahushy.

        O pequeno Hyahushy, andava mais de três kilómetros até atingir o seu local de pesca, um buraco que não teria mais de 35 centímetros de diâmetro.

        Ali chegado, puxava de um banquinho, prendia uma das suas pequenas sardinhas ao anzol e lá deixava descer o pequeno peixe na procura de uma pequena foca, era uma festa, todos os dias uma pequena foca vinha bincar com a sua sardinha e ele cá de cima assistia àquele espectáculo, assim como que umadança entre gato e rato, mas sabendo que o rato é esperto e jamais se deixaria apanhar pelo gato.

O seu Pai também saía cedo e todos os dias trazia uma grande foca para casa.

        O pequeno, nunca tinha apanhado nenhuma até àquela manhã. O sol brilhava intensamente e enchia aquele branco gelado de uma cor assim meio amarelada, de luz intensa, quase encandeante. O pequeno lá lançou o isco e ao fim de poucos instantes, lá esteva ela, a pequena, que cada vez estava maior, foca. Sem que o pequeno pescador desse por isso, ela desta vez agarrou-se ao isco e prendeu-se no anzol, foram momentos de luta e quando finalmente a foca desistiu, o pequeno puxou-a, já não mexia, ainda lhe tentou tirar o anzol, quis desprendê-la o mais rapidamente possível, mas já não havia nada a fazer, estava morta. O pequeno Hyahushy, tomou-a nos seus braços e rumou a casa.

        Quando o pequeno Hyahushy cegou a casa a sua mãe reparou que chorava, que chorava muito, nos braços, trazia o seu troféu, pela primeira vez havia pescado uma foca, uma pequenina foca, a sua mãe, ao aperceber-se da aflição do seu pequeno esquimó, aproximou-se, ajoelhou-se limpando-lhe as lágrimas e perguntou:

        – “Porque choras meu pequeno Hyahushy? Hoje devias vir radiante. Como pode alguém que apanha a sua primeira pescaria vir tão triste? Meu filho, acabaste de apanhar uma foca, estás a tornar-te homem, grande e forte.”

        – “Não mãe, estou a tornar-me grande e mau, sabes mãe! Todos os dias quando saio de casa vou ali até àquele altinho de gelo pedir ao sol que me traga a minha amiga foca, ali àquele buraquinho onde a vi nascer, todos os dias lhe levo estas pequenas sardinhas, não para a apanhar, mas para lhe dar de comer. Todos os dias quando de manhã falo com o sol, peço-lhe para a proteger, para que ninguém lhe faça mal, para quando eu chegar ao meu pequeno buraco ela ainda lá esteja. Hoje, o apetite dela foi mais rápido que a minha mão e não consegui fugir-lhe, agarrou-se ao anzol e apenas a consegui libertar quando já estava morta. Matei a minha amiga porque a sua fome e desejo foi maior que o seu desejo de brincar. É assim que nos tornamos mãe, à medida que crescemos tornamo-nos gananciosos, deixamos de querer as coisas para brincar, mas para ter mais, deixamos de admirar as coisas para as passarmos a possuir e depois, tal como a minha amiga foca, no desejo de tanto ter, deitamos tudo a perder…”   

“Quando Deus quer…”

        “Quando Deus quer, não é a primeira vez que vos trago Deus a esta rubrica, não porque vos queira vender a imagem de um homem muito sério, muito crente, muito puro e outras coisas mais, não. Eu sou como todos os outros, falho tanto ou mais e jamais quero servir-me de Cristo para limpar ou encapotar as minhas falhas, isso não.

        Agora também não era verdadeiro se não vos dissesse que sou um homem de fé e, não tenho medo nenhum de o dizer, de o assumir.

        Tenho momentos de verdadeira angustia e infelicidade, como temos todos, mas acho que se tivermos algo divino a que nos agarrar, tanto melhor. Ele não me paga as dívidas, nem remedeia os erros que cometo, mas pelo menos tenho a certeza que me escuta, que aceita as minhas falhas, que posso ir ter com ele e desabafar, chorar, até soltar a minha raiva e desencanto.

        Deus é dos poucos a quem podemos contar tudo, de resto aqueles que acreditam como eu, até sabem que ele já sabe tudo, mas é tão bom ter com quem desabafar, é tão bom ter com quem chorar, é tão ter com quem partilhar as nossas desventuras e erros, sabendo que ele não se vai servir disso para nos destruir, para nos envergonhar. Sabendo que não vai utilizar as nossas fragilidades para nos expor ao ridículo em que muitos nos gostam de ver.

        Quero dizer-vos que eu sou muito positivo, acredito sempre que apesar de tudo, amanhã estarei melhor, que o amanhã será sempre melhor e, como sou um homem de fé, acredito que com muita luta e trabalho, Deus não me falhará, assim não falhe eu, e tudo, mas mesmo tudo, por mais voltas que se dêem há-de sempre acontecer segundo a sua vontade. Assim acreditemos nós, sem baixar os braços, até porque depois da tempestade vem sempre a bonança.

        Fecho a citar Pessoa:

 “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

“É a isto que chamamos vida…”

“Cá vou eu na minha Voz Alta, hoje apenas para agradecer, agradecer a todos quantos ontem quiseram estar comigo na apresentação do livro, obrigado a todos que não estando estavam a torcer por mim e que me fora enviando mensagens desejando que tudo corresse bem.

Sei que alguns vieram de longe, espero que tenham feito uma boa viagem de regresso.

Espero, acima de tudo, que todos encontrem neste blog, agora tornado livro, alguma coisa de válido.

Tenho que confessar que eu, logo eu, tão habituado a estas coisas dos palcos e dos microfones, me senti ontem tão nervoso e desajeitado.

Lembrar o meu Pai e o Meu irmão não foi, e jamais será fácil, é certo que se a vida corresse pela ordem normal me estaria reservado, pelo facto de ser o mais novo, vê-los partir, mas não é de facto normal perder-se o pai quando este tem apenas 48 anos e muito menos normal é perder um irmão quando este tem apenas 38.

Só conheci um dos meus avós, neste caso uma avó, mas mesmo essa, morreu quando eu era muito pequeno e a imagem que tenho dela não é mais que uma esfumada sombra.

Confesso que, apesar de ser alguém publicamente conhecido, não tenho muitos amigos e os que tenho, não estão muitas vezes comigo. Não faço seguramente uma vida de grande intensidade social e sou muito mais tímido e introvertido do que possam imaginar. No entanto, sinto-me tão bem quando como ontem, me pude uma vez mais entregar sem falsidades ou fingimentos.

Disse o Dr. José Alberto Fateixa que; não passo indiferente, que serei idealista e agitador, muitas vezes polémico, sonhador e lutador. Serei, mas prefiro ser tudo isso do que não ser nada.

Sou assim, como todos os outros, cheio de defeitos e possuidor de algumas virtudes. Não serei um homem perfeito, muito longe disso, mas há uma coisa que sempre fui e sou, sonhador e obstinado.

Vim cá para viver e tentar aproveitar tudo, e todos sabemos que a vida tem momentos bons e maus e eu, não fujo à regra, sou como a vida, tenho bons e maus momentos, ontem, foi dia para um bom momento, obrigado por me acompanharem nesta passagem, ainda estou assim, meio tonto com a vossa presença e amizade. Quero ficar assim mais uns momentos nesta inebriante felicidade, quero aproveitar mais um bocadinho, até porque hoje, não sei o que me vai acontecer e se ao invés de ontem, me estiver reservado um dia menos bom, cá terei que estar pronto para o viver, não há volta a dar.

É a isto que chamamos vida…”