“O trabalho que dá a sorte…”

            “Há quem leve a vida a olhar para a vida dos outros, a tirar conclusões, a julgar, a invejar.

            Quero hoje aqui confessar-vos que se há coisa que me incomoda é o facto haver quem passe a vida a olhar para a vida dos outros. Ás vezes, nem da sua própria vida dão conta, quanto mais da dos outros.

            Que não vos pareça estranho o inicio deste texto e o nome que atribui ao mesmo, apenas quero fazer aqui uma ligação, entre aquilo que muitas vezes parece e o que realmente é, entre o sucesso e a felicidade e o olhar vindo de fora, de quem muitas vezes não sabe, nem percebe que a sorte se constrói dia a dia, não se espera, procura-se. De resto apenas acredito na sorte, precisamente nos jogos de sorte ou azar, claro se me sair o euromilhões é porque tive sorte, até porque muitas vezes nada faço para ter essa sorte, quantas vezes nem sou eu que vou registar o boletim.

            Mas de regresso ao que importa, a sorte de quem trabalha. Não são poucas as vezes em que ouvimos dizer: “há aquele ou aquela é que tiveram sorte, bom emprego, boa vida, etc, etc…” e é precisamente por estas e por outras que eu, não acredito na sorte. Acredito que a sorte se constrói, na maioria das vezes lá sabemos nós, quanto esforço, dedicação e trabalho, normalmente estão por detrás daquilo a que nós chamamos sorte. É seguramente sempre mais fácil avaliar os resultados, emitir opinião sobre o que se vê, mas o problema é mesmo esse, é que na maioria das vezes nos limitamos a avaliar, apenas, pelo que vimos e julgamos como certeza absoluta e conhecimento completo.

            Vou enquadrar tudo aquilo que vos digo no meu caso pessoal, sem rodeios ou palavras e intenções escondidas.

            Nesta altura da minha vida estou a trabalhar com Frei Hermano da Câmara, um homem único, irrepetível de sensibilidade única de génio e talento dificilmente encontrados. Estamos a dois dias de iniciar uma tournée que já leva cerca de 15 espectáculos marcados e, há dias alguém me disse:

            – “Hã, isso é que foi sorte!”

            Eu apenas respondo, para além da vontade de Deus e eu como sou crente, acredito nisso, passe a redundância:

            – “Não, não é ou foi sorte, foi luta, trabalho, dedicação e uma vontade férrea de o encontrar e nuca desistir, mesmo quando tudo parecia perdido”

            É sempre bem mais fácil olhar com a tal perspectiva, a que já fiz referencia mais atrás, de quem olha de fora e só analisa resultados, do que procurarmos saber o que realmente se passou, quanta luta, trabalho, dedicação e muitas vezes obstinação, são necessários para se alcançar aquilo a que alguns chamam sorte. Sabem lá muitas vezes quantas noites perdidas, quantas refeições não tomadas, quantos kilometros percorridos, quantos desentendimentos, quantas portas fechadas, quantos avanços e recuos são necessários para dez minutos de sorte. É por estas e por outras que cada vez mais não acredito na sorte, a do jogo, nunca tive nenhuma e à outra, aquela em que as coisas nos caem do céu, também nunca tive acesso. A única sorte a que tive acesso na minha vida foi a que surgiu do meu empenho e dedicação. – Tu que te fechas em casa, que não arriscas, é assim que queres ter sorte? Por isso amigo te digo, nunca esperes a sorte, essa não existe. A sorte que possas vir a conhecer ao longo da vida, será sempre a que tu conquistares a que tu mereceres, porque fizeste por isso, porque te esforçaste por isso registando todos os dias o boletim com as apostas dos teus sonhos, marcados e confirmados com a caneta da tua entrega, da tua luta, dos teu desgostos e derrotas, mas sempre, sempre, sem desistências, com a fé e esperança de que no amanhã o suor e tristeza de hoje se converterão em sucesso e felicidade. Não adormeças ou te feches no azar e muito menos te percas nos dias a tentar perceber porque aos outros as coisas possam correr bem, e já agora, nunca invejes ou mal digas a sorte de quem trabalha, tenta antes perceber porque têm e usufruem daquilo a que tu chamas sorte, pergunta-lhes, vais ver que os adjectivos que utilizam estão bem longe se serem os que tu sempre imaginaste…”

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“Até já Portugal, até sempre Scolari…”

            Fechou-se o palco, assim poderia chamar ao texto de hoje, mas não. Preferi chamar-lhe “Até já Portugal, até sempre Scolari”.

            É certo que desta vez não fomos brilhantes, é certo que todos queríamos, gostávamos e sonhámos com Portugal na final, é certo que, como bons Portugueses, queríamos o melhor para a nossa selecção e naturalmente o melhor era vencer, era ir mais longe, assim como os bons pais querem sempre o melhor para os seus filhos, achando-os sempre os melhores, os mais capazes, cheios de dons e qualidades, assim nós olhamos e sentimos a nossa selecção e se este nós vos souber a uma unidade colectiva exacerbada, então troco o nós, por alguns de nós, provavelmente a maioria de nós.

            É certo e sabido que muitos há, vá se lá saber porquê, que estavam desejando que isto acontecesse, ou porque não gostam do Scolari, ou porque não gostam dos jogadores, ou porque não gostam da federação, ou, ou, ou…ou tão simplesmente porque não lhes interessa nem agrada o sucesso dos outros.

            Fechou-se um ciclo, se no campeonato anterior já se tinha fechado uma era, com o abandono de alguns históricos como o Figo, Rui Costa, Fernando Couto entre outros, a verdade é que agora se fecha outro com o adeus de Scolari, mas como em tudo na vida, já outro se abre, com a entrada dos Moutinhos e Nanis, enfim, foi é e será sempre assim, vamos de sonho em sonho abrindo e fechando ciclos, e, há lá coisa melhor do que sonhar aqueles sonhos bons? Não, claro que não.

            Eu hoje acordei como sempre muito cedo, para vir fazer o meu programa de rádio, viria mais feliz se tivéssemos ganho, mas ainda assim, não venho nada triste, não. Foram 19 dias de coisas boas, falou-se menos dos problemas do dia a dia, que como bem sabemos, esses sim, nos dão motivos para tristezas. É que o futebol, apesar dos milhões que envolve, não é uma coisa muito séria, é uma coisa para entreter e dar prazer, bolas, fartos de tantas coisas sérias andamos nós e não nos entretêm nada. Há 10 dias atrás andávamos desesperados a ver o país praticamente parado com o bloqueio dos homens dos transportes, prateleiras vazias, nada de alimentos frescos, pouco peixe ou carne, leite a ir para o lixo, pois é, isso sim é que são coisas sérias.

            Hoje acordámos e, as prateleiras não estão vazias, os combustíveis não faltam nas estações de serviço, os medicamentos não estão mais caros, bom, por acaso até estão, mas não por culpa da equipa de Scolari, enfim, eu gosto muito de utilizar a palavra enfim, não sei se já repararam, talvez a única coisa que tenhamos hoje á a prateleira dos nossos corações, com menos auto-estima e menos sonhos, mas isso amanhã já passou, é por isso que eu gosto tanto de desporto e destas coisas menos importantes, é que elas nascem, vivem e morrem sem nos afectar grandemente, umas vezes dão-nos mais motivos para a alegria outras nem por isso, mas ao menos vamos de sonho em sonho, com este orgulho de ter nascido aqui, nesta pátria de Pessoa e Camões há beira-mar plantada, que apesar de hoje já não fazer sentido, continuamos a cantar, “Contra os canhões, Marchar, Marchar”, que assim seja, daqui a dois anos há mais e espero que as nossas janelas se voltem a engalanar com as quinas do nosso orgulho. Numa esfera armilar rodeada de verde e vermelho, há quatro anos mais verde, na esperança que nos trouxeste, desta vez mais vermelha, nos sonhos derramados.

            P`la minha parte muito obrigado selecção, adeus Scolari, perdemos, fechou-se o palco, mas enquanto estivemos em cena, foi um orgulho ver aquela rapaziada e os milhões de Portugueses espalhados por esse Mundo fora a gritar “ Heróis do mar, nobre povo, nação valente e imortal”.

            Podem os sonhos morrer, mas nós, tenho a certeza, cá estaremos amanhã, de esperança renovada, a levantar do novo o esplendor de Portugal.”

“Francamente não posso, mas é que não posso mesmo…”

“Talvez já todos os que me escutam aqui na rádio e visitam através da net, tenham passado e pensado o mesmo que eu, acho mesmo que sim, já todos nos cruzamos nas nossas vidas com a hipocrisia, muitas vezes bem mascarada.

Ontem fui à missa, de resto vou muitas vezes à celebração das seis da tarde aqui na minha cidade, Estremoz, nunca escondi igualmente a minha simpatia religiosa pelo catolicismo mas também já aqui referi muitas vezes, que em nada me incomoda o facto de haver muitos outros que professem outros credos, desde que seja para o bem, tudo bem, que cada um escolha o caminho que bem entender -não é a estrada que escolhemos que importa, mas sim a forma como fazemos o caminho.

Bom, ontem uma das escrituras tinha a ver com a hipocrisia, a mentira, a ostentação, o fingimento e falsidade, é verdade!

Ao ouvir aquelas palavras ontem, vieram-me à ideia tantas situações e algumas pessoas que conheço e como gostava de pôr nomes naquelas passagens, como gostava de poder dizer a alguns o que me vai na alma, como gostaria de poder pôr no vento a tristeza que sinto, quando vejo alguns cheios de responsabilidades, vestirem as suas vidas de tamanho fingimento e hipocrisia, e depois abrem a boca a anunciar grandes maravilhas, a pedirem aos outros a coerência e bem feitorias que nunca colocaram ou colocam no seu dia a dia.

Eu, já o disse várias vezes, se há coisa que me incomoda é a história do Frei Tomaz, não. Não sou nada a favor de fazer o que ele diz e não o que ele faz, farto de vendedores da banha da cobra estou eu, de grandes anunciadores de coisa nenhuma. São falsos, fingidos e mentirosos. Beijam-nos, abraçam-nos apenas quando precisam de nós, e como têm memória curta meu Deus, assim que lhes deixamos de ser úteis, aí estão eles de novo, aos pontapés, de sorrisos estampados como se nós não percebêssemos quem são e o que querem de nós.

Como eu gostava de poder desmascarar alguns deles, mas francamente não posso, até porque não tenho o direito de acusar ninguém e ao fazê-lo, publicamente, estaria a ser igual a eles, e quantas vezes também eu enfermo de alguns desses males, mas de uma coisa tenho a certeza, não o faço como modo de vida e muito menos com a consciência de que o estou a fazer.

A verdade é que ainda assim, alguns bem mereceriam que colocássemos nomes em algumas da coisas que aqui quis dizer, até porque nos magoam e deixam tristes, principalmente porque quando nós partimos à procura da felicidade e tudo fazemos de forma honesta para o conseguir, aí estão eles, logo a tentar derrubar-nos, cheios de inveja e mascarados de sorrisos para tapar o ódio e revolta que lhes vai no coração, é verdade. Como incomoda tanto a alguns o sucesso e felicidade dos outros.

Meu Deus como eu gostava de pôr nomes nestas palavras, mas, repito, francamente não posso, espero que perdoes esta minha cobardia, mas é que não posso mesmo…”

 

“Sei que não vou por aí…”

Ai meus país, de onde vens para onde vais?

        Não é a primeira vez que aqui venho dar conta do meu descontentamento com o rumo do nosso país.

        Não me interessa nada a politica e os políticos, não me interessa nada o, ou os partidos que governam, aquilo que sei e sinto é que assim não vamos lá.

        Fazemos lá fazer aqui um bocadinho de história, primeiro foram as questões da justiça, depois foi a saúde, depois foi a educação, agora são os “gasois”, e as greves dos homens do mar e da estrada, enfim, mas será que ninguém põe mão nisto?

        Eu já nem digo nada, agora começo a perceber porque é que os portugueses, ainda há menos de um ano, votaram no Salazar para o melhor português.

        Já aqui disse e repito sem qualquer tipo de medo ou conotação política, que não concordo nada com a insensibilidade demonstrada por este governo em algumas áreas, não sou anarca mas entendo que as leis são para as pessoas, para lhes permitir ser responsáveis e terem obrigações mas, acima de tudo, para lhes permitir ter uma vida o melhor possível e isso, meus amigos, nesta altura é claramente uma utopia.

        Tudo está mais caro, os serviços em nada melhoraram, morremos cada vez mais, nas mais inesperadas situações, pagamos impostos atrás de impostos, como é possível a diferença do nível de vida e de preços praticados, logo aqui em Espanha.

        Há um ano estive em França uns dias, onde o ordenado mínimo é de cerca de 1500€, trezentos contos dos antigos, e qual não é o meu espanto quando, tudo, ou quase tudo era muito mais barato do que em Portugal, pelo menos os bens essenciais.

        Pois é verdade estou farto disto.

        Para já nem falar da ASAE, que se por um lado, e bem, realiza as suas inspecções, por outro lado, e mal, em meu entender, usa e abusa, é bom lembrar que até se sugeriram objectivos de multas e processos.

        Ai meu país de onde vens para onde vais?      

        Valha-nos aos menos Luis Filipe Scolari e os seus Muchachos, que apesar de tudo lá nos vão continuando a dar motivos para a felicidade, apesar de também estes, e particularmente o Sr. Scolari, continuarem a ser inexplicavelmente atacados, normalmente por aqueles que nada fizeram, nada são, mas que naturalmente se julgam uma grande coisa, ainda bem eles não lhes dão ouvidos, porque se não assim ainda faziam o que eles queriam e o resultado seria o de sempre, uma selecção como o país, à beira da rotura… razão tinha o Villaret:

– “Não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí…”

“Coisas sem importancia nenhuma…”

            “Sei que a vida passa demasiado depressa e sei igualmente que muitas vezes gastamos demasiadas energias em coisas sem importância nenhuma.

            Há dias passei p`la rua por um amigo, daqueles antigos, tínhamos passado tantas coisas juntos, eu conhecia-o quase desde que nasceu.

Fiquei com a impressão de que não me falara, mas não tive bem a certeza, a verdade é que ontem voltei a cruzar-me com ele, bem mais perto, e afinal não me falou mesmo, ou melhor, não me fala mesmo.

            Fui para casa, triste com este facto e tenho estado a pensar o que pode levar um ser humano a deixar de falar a outro, quantos disparates são precisos para que alguém se julgue tão importante ao ponto de deixar de falar a outro, vou contar-vos uma história:

            Um dia há muitos anos, numa pequena terra chamada “Arrogância”, viviam dois amigos, daqueles muito próximos, haviam crescido juntos, partilhado inúmeros momentos, de alegria e felicidade e claro como tudo, de alguns dissabores e tristezas também. Um dia, um deles saiu-lhe a lotaria, muito dinheiro e começou a julgar-se muito importante, depressa se esqueceu de todos os seus amigos, de todos quantos ao longo da sua vida o haviam ajudado, mas o que é que isso importava agora, estava rico e claro, já não precisava de favores de ninguém, tudo o que precisasse compraria, tudo do que necessitasse estava apenas à distancia da sua capacidade financeira e isso, não era agora problema.

            Era verão, o sol ia alto e este nosso amigo agora rico e poderoso, poder à custa da riqueza, saiu de casa para um passeio, era solteiro e poucos ou nenhuns amigos se lhe conheciam, para além do tal amigo, que agora também já pouco próximo estava, com todo aquele dinheiro as relações eram outras, tinham mudado e aqueles com quem agora se dava eram apenas homens do seu estatuto financeiro. Bom mas dizia eu que era verão e o sol ia alto, o nosso amigo “João”, assim lhe vou chamar, agarrou no seu melhor carro, um Porche, ou lá o que era aquilo, daqueles que parece voar, e saiu para um passeio, a meio da sua viagem, numa curva mais apertada, o Porche, apesar de ter todas as condições, não se agarrou à estrada e embateu violentamente numa pedra, quando os meios de socorro chegaram já nada havia a fazer, ali se perdia mais uma vida, e logo agora que tudo era tão bom, que tanto dinheiro tinha e tantos sonhos para gastar.

            Já no céu, Deus chamou o “João” e pediu para este se sentar com ele e ali, de cima, assistir ao seu próprio funeral. Que estranho, nem uma pessoa ia no seu funeral, nenhum dos seus novos e poderosos amigos e para grande tristeza e espanto do “João”, nem o seu amigo de sempre lá estava. Deus apenas lhe perguntou:

            – “Então não há quem te queira acompanhar?”

            – “Não sei o que se passa, não entendo, ninguém e o que mais surpreende é que nem o meu amigo de sempre ali vai!”

            – “Pois não, queres ver aqui de cima onde ele está? O que está a fazer e porque não te acompanha neste caminho final?

            – “Sim, gostaria”

            – “ Então olha, ali está ele, naquele jardim, naquele onde cresceram juntos, naquele onde partilharam tanta vida, naquele onde se encontravam para falar, para rir, para trocar sonhos e ambições, vês o banco onde está sentado? Ainda te recordas? Lembras-te quando há muitos anos prometeram que, fosse qual fosse a vida que viessem a tomar, jamais se afastariam, que jamais deixariam cair a vossa amizade?

            Pois é ele está ali desde a hora que soube que morreste e sabes para quê? Para rezar. Está ali há dois dias, a rezar incessantemente e sabes o que tem pedido nas suas preces? Perdão. Perdão por todos os erros cometidos, pela falta de humildade e excesso de orgulho, pela cegueira de desprezar os outros, está ali a pedir perdão por ti, para que te perdoe todos os teus erros.

            Sabes porque estás aqui comigo agora, no céu? Tu que seguramente não merecias aqui estar.

            – “Não!”

            – “Estás por ele, que apesar de tudo, ali te chora. Está ali naquele banco e não no teu funeral porque se foi despedir de ti ali àquele banco, naquele jardim, porque o amigo que perdeu é aquele que ali se sentou com ele ao longo de tantos anos, o que vai no caixão, nada lhe diz e desse ele não tem saudade nenhuma.

            Hoje estás aqui no céu, apesar do teu lugar ser no inferno, porque não suporto ver o sofrimento em que ele está, é que os amigos, por mais mal que lhe façamos, nunca se afastam de nós, apesar de muitas vezes nós nos afastarmos deles e, estupidamente, muitas vezes por coisas sem importância nenhuma desprezamos quem gosta de nós verdadeiramente, julgando-nos muito superiores e importantes, e quando reparamos, às vezes é tarde demais.

 A importância de nada nos serve.

 Os amigos, há que os saborear enquanto estamos e estão vivos…”

“A minha casinha…”

“Que saudades eu já tinha

Da minh` alegre casinha

Tão modesta como eu…”

            Conhecem este bocadinho da música chamada “A Minha casinha”?

            Não na versão mais moderna dos “Xuntos e Pontapés”, não, eu refiro-me mesmo à versão original da Milu.

            Pois hoje apetece-me falar da minha casinha, e desafio-vos irem pelas minhas palavras e ideias e se quiserem vistam-nas com a vossa casinha.

            Sabem? Eu ainda sou do tempo de se nascer em casa, é verdade, nasci em casa, naquela casa onde ainda hoje mora a minha mãe, aquela casa que apesar de pequenina e humilde, será sempre a minha casinha, a de que mais gosto, a que me trás melhores recordações, e algumas más também.

            Foi daquela casa que parti para o meu primeiro dia de escola, para o primeiro treino de hóquei, para o primeiro espectáculo, para o primeiro emprego, para a primeira namorada, para tantas primeiras coisas.

            Também foi daquela casa que vi partir meu Pai, para nunca mais voltar, foi daquela casa que vi partir alguns dos meus grandes amigos, sabem quem? Alguns dos meus muitos cãezinhos, porque sempre lá tivemos cãezinhos. Também foi aquela casa que me viu chorar, me viu crescer e descobrir todo o meu corpo, foi aquela casa a companheira de tantas horas de leituras e estudos, foi aquela casa, aquela mesma casa e aquele mesmo quarto que sempre partilhei com os meus dois irmãos, aquele beliche, que me viu rir e zangar, ás vezes grandes brigas com o meu irmão Paulo, quem me dera hoje poder brigar-me contigo outra vez, como dava a minha vida toda pela repetição de um só desses momentos, mas não dá. Não há remédio, tudo passa, nós crescemos, envelhecemos e só quando mais tarde olhamos, como eu o estou a fazer nesta altura, é que percebemos o quanto impotentes somos para travar o tempo e poder saborear aqueles momentos.

            Parece estranho, mas como uma casa, aquela casa, guarda tantas recordações

            A verdade é que ainda hoje, naquela casa está a coisa mais importante da minha vida, a minha mãe, a verdade é que aquela é que é a minha casa, a verdade é que todos nós seguramente temos a nossa casinha. Pode hoje já nem ser a nossa casa, até pode já nem existir, mas tenho a certeza que existirá e viverá para sempre nas nossas memórias. Tenho a certeza absoluta que todos guardarão no coração uma casa muito especial, pode não ser nada de especial, pode ser feia, pode ser pequena, mas é como no amor, podem aqueles a quem amamos não ser os mais belos e os mais deslumbrantes, mas aos nossos olhos, sê-lo-ão concerteza, e isso é que interessa, que importância tem o que os outros pensem, se o que importa é a nossa felicidade,   quero lá saber que a minha casa e o meu amor e a minha vida não agradem aos outros, o que importa é que me agrade a mim e que isso me permita ser feliz.

Façamos todos, de todos os dias, um Mundo à imagem da nossa

casa, com defeitos e virtudes, com tristezas e alegrias, mas que nos protege de tudo, do frio e do calor, do sol e da chuva, dos que dizem bem e dos que dizem mal. Façamos das nossas vidas o que fazemos ao entrar em casa, fechemos a porta e não permitamos que quem não vier por bem lá entre.

É por isso que hoje faço esta alusão à minha casinha, aquela onde

nasci, cresci e vivi e onde adorava um dia vir a morrer…”