“Na Balda…”

        

     “Na balda, eu sei que talvez este termo seja demasiado moderno e que seria politicamente mais correcto ter chamado ao texto, em tempo de reflexão ou quando a vontade não é muita, mas não, como não costumo refugiar-me nas palavras chamei-lhe mesmo, na balda.

     Na balda, porque ando mesmo um bocadinho na balda, neste tempo de férias confesso que não tenho andado muito inspirado, ou melhor, tenho andado mais ocupado, comecei a tournée com Frei Hermano e como sou eu quem trata de toda a parte artística e burocrática, que vai desde a escolha do repertório, aos ensaios, marcação de espectáculos agenda, organização e informação, o tempo que me tem sobrado não é de facto muito. Levanto-me por norma ali pelas seis da manhã e nunca me deito antes da uma duas da noite.

     Não sou, nem nunca fui, “artista” para dormir muito e também não consigo, desde que acorde claro, ficar na cama, para mim a cama é para dormir e para mais algumas coisas que não fica bem aqui divulgar… eh, eh…, pois vocês sabem não é? Não tenho por norma expor muito a minha vida privada, nem procuro muito sobre a vida privada dos outros, já temos demasiadas interferências nas nossas vidas, já temos demasiadas intromissões e por este andar qualquer dia somos completamente controlados e vigiados e depois lá se vai a pouca privacidade que nos resta. Agora já falam também em chips nos carros para saberem onde estamos e para onde vamos, ou terei sido eu que ouvi mal? Bom, mas eu já espero tudo.

     Eu sei que me afastei um bocadinho do tema e do titulo, mas o que vos quis hoje dizer é que de facto tenho andado muito ocupado e para escrever estes textos com alguma lógica, não posso nem o quero fazer de animo leve e assim, tenho-me andado a baldar, espero que não deixem de me vir aqui visitar, até porque quando menos se esperar posso sair deste estado de hibernação e depois nunca se sabe o irão perder. Grande modéstia…

     Para já fico por aqui, não vos quero maçar mais, mas não deixem de aparecer e mandar beijinhos e abraços, é certo que os beijinhos são melhores e há sítios onde são maravilhosos…, não, não era isso que estavam a pensar, eu estava a falar de beijos junto ao mar, nas noites de luar na Primavera ou no Outono, numa qualquer floresta apenas com a com os passarinhos como testemunhas…Pronto, confesso que estou a mentir,  era mesmo de sítios físicos que estava a falar, tchi, por exemplo no pescoço é tão bom, e nas orelhas? Bom é mesmo melhor ficar por aqui, mas não percam nada, um dia, prometo ainda aqui escrevo um texto a dizer onde é que gosto mais de beijinhos… A coisa promete…Não percam as cenas dos próximos capítulos, pois é, qualquer dia escrevo uma telenovela. A Maria que anda com o António mas gosta do Francisco, a outra que mata a vizinha do primo do amante para lhe ficar com o gato, aquela que vai para a Índia porque no Japão há mais gente com os olhos em bico e comem cães e cobras e essas coisas assim e por fim a mãe que anda com os namorados das filhas, mas que de quem ela gosta mais é da mãe da namorada da filha mais velha mas envergonha-se de assumir. Acho que isto pegava, não liguem é que hoje acordei assim, acho que o calor que me anda a dar cabo dos poucos neurónios que me restam… agora é de vez.

     Mas onde é que eu gosto mesmo mais dos beijinhos? Hã? Não queriam mais nada, então é que não me largavam… oh,oh… 

     Vá beijinhos…”

“Seja como for…encosta-te a mim..”

     “Encosta-te a mim, esta é talvez uma das frases mais usadas, entenda-se cantada nos últimos tempos.

       Foi um golpe génio e de talento do Jorge Palma, é certo, mas esta canção traz-me à mente algo mais dramático e infelizmente bem mais real.

       Sei bem, que alguns não darão muita importância só a esta frase – “Encosta-te a mim” e sabem porquê?

Porque felizmente têm, ou têm tido sempre a quem se encostar, e aqui, não estou a colocar encostos tipo cunha, não. Falo de encostos de amor, de ombros de apoio, de mãos e palavras nas noites e momentos de solidão.

       Que bom é ter a quem nos encostarmos e que dramático é quando perdemos o encosto, ou porque os nossos companheiros morrem, ou porque o amor acaba e as vidas se separam, ou porque simplesmente a isso somos obrigados, com empregos longe, com a busca e procura de melhores condições noutros lados, ou porque nunca se encontrou a pessoa certa a quem dar e de quem esperar encosto, enfim de tudo um pouco, mas seja qual for a condição, é uma tristeza não se ter ninguém a quem dizer – “Encosta-te a mim”

       E a verdade é que todos nós, nem que tenha sido só enquanto fomos pequenos, já tivemos a quem nos encostar, aos nossos pais, às nossas mães.

       Encosta-te a mim, vou-vos contar uma coisa, e visto que estes textos são o suporte de uma rubrica na rádio. Há dias uma ouvinte minha contou-me que se deixa dormir ao som da rádio e só se sente bem e confortável com o rádio encostado a ela, curioso, disse-me – “Sinto-me segura e amada”. A verdade é que nós, muitas vezes, não percebemos o que dói não ter a quem nos encostarmos, não percebemos quanta importância tem ouvir dizer – “encosta-te a mim” , quanta tristeza e dor se guarda e fecha em corações sem encosto, em vidas sem amparo, em perguntas sem respostas, em sorrisos transformados em risos de tristeza.

       Da próxima vez que ouvires esta canção, amigo que me lês e escutas, podes dizer – “Vou encostar-me a ti” e pensar em mim, podes ter a certeza que apesar de não sentires fisicamente a minha presença, me irás encontrar algures, com espaço em mim para te encostares, e eu vou-te dizer, onde quer que esteja:

       – “Seja como for, encosta-te a mim…”

“Nunca é tarde…”

           “Nunca é tarde…, expressão tantas vezes usada, serve para todos os assuntos, para todas as áreas para quase tudo na vida.

            Nunca é tarde para o sucesso, nunca é tarde para arrepiar caminho, nunca é tarde para a felicidade, nunca é tarde para corrigir erros, nunca é tarde para começar a viver, nunca é tarde para amar…poderia seguramente encher esta página de coisa que nunca são tarde para se empreenderem, mas vou mesmo ficar na última, nunca é tarde para o amor, nunca é tarde para amar.

            Se um dia te disserem que o teu tempo passou, que a tua vida não presta, que tu não és um exemplo, não te incomodes. Pára, vê se há algum fundo de verdade no que te dizem e acima de tudo não desesperes nem queiras ir buscar aos outros desculpas, porque sabes que há muito que enfermam dos mesmos males, não. Não te entregues igualmente em ódios ou revoltas, não, esse é de todos o pior caminho. Quando te apontarem o dedo não te incomodes para onde aponta, mas como aponta, repara que para lá de ti esse dedo aponta o caminho, a estrada, é caminhando que construímos. Parados, imóveis, apenas contribuímos para a nossa derrota.

            Mesmo que um dia chegues à conclusão que tudo o que fazes e fizeste está errado, não te lamentes, não escolhas os bancos para o teu descontentamento. Agarra na tua vida, enche-te de coragem e vai, faz novo caminho, recomeça – “Nem que seja para ser feliz só um dia da minha vida, hoje vou por aqui” isto disse-me um dia um amigo, quando o questionava sobre a sua vida de agora, sobre o caminho em que seguia, perguntei-lhe ainda:

            – “E o amanhã, como vai ser? Seguindo por aí o que te irá acontecer?

            Respondeu-me da for que jamais esperei ouvir:

            – “Tenho passado a vida a lamentar-me dos erros de ontem, vivo num hoje de pouca ou nenhuma felicidade por isso, só já me resta o amanhã, que quero construir a partir de agora, se este novo caminho me permitir ser feliz um dia, então já poderei dizer quando me perguntarem, que ao menos por um dia fui feliz na minha vida”.

            Será que vale a pena tanto esforço, para sermos felizes apenas um dia?

            Claro que vale, bem mais triste é não ter sido feliz dia nenhum.

            Por isso digo hoje, pode não ser tarde para muita coisa, mas o mais importante é nunca acharmos que é tarde para amarmos e sermos amados, amor de carne, amor de espírito, amor de amor. Tudo o que quisermos mas com a consciência de que na vida só chegamos tarde na hora do nascimento, porque temos tanto para fazer e a morte desde esse momento que achou que não era tarde para nos encontrar, iniciando um processo que nos levará para o fim.

            Podemos chegar tarde a muitas coisa ao longo da vida, mas nunca nos devemos atrasar para o amor e mais que isso, mesmo que estejamos muito atrasados, nunca nos fiquemos pelo caminho, que mais vale tarde do que não chegar, porque para o amor…nunca é tarde…”

“As pedras não trazem nome…”

         “Há muitos anos, na idade média, vivia nos planaltos da Irlanda do Norte um grupo de nómadas, chamavam-se “Os Vencedores”, eram muitos e havia muitas crianças que livremente conquistavam dia a dia o verde das terras e o azul dos céus.

         Havia nesta “Tribo” um menino espantoso, desde sempre se destacara pela forma como corria, como saltava, como desde muito pequenino ganhava todas as sua lutas aos outros meninos, era ágil e demasiado inteligente para a sua idade.

         Naqueles campos da velha Irlanda havia um lugar lindo, mas muito alto, quase ninguém conseguia subir ao ponto mais alto, era uma escarpa íngreme, de rochedos escorregadios e para além da força era necessária uma agilidade que poucos tinham para além do pequeno Jonh.

         Um dia o nosso pequeno herói decidiu começar a acarretar pedras para junto daquela escarpa, queria construir um muro de fácil acesso para que todos pudessem subir àquele alto e ver quanta beleza estava por detrás daquela montanha, quanta vida existia para lá daquela altura e que visão deslumbrante se encontrava àquela altitude. Ele que passava a vida a contar aos outros meninos as belezas escondidas para lá daquelas rochas, ele que enchia os olhos de luz e brilho sempre que falava daquele nascer e pôr-do-sol que mais nenhum menino podia ver. Por isso mesmo começou a construir o tal muro, para que todo aquele mundo pudesse ser partilhado por todos.

         Trabalhou de dia e de noite e o seu muro, miradouro, cada vez estava mais alto, muitos meninos houve que o iam ajudando naquela nobre tarefa, de resto todos aqueles meninos eram seus amigos, todos ali haviam nascido e estavam a crescer juntos, já tinham jurado várias vezes que o futuro seria deles, cheio de vitórias e conquistas, por isso mesmo todos seriam poucos e todos estavam envolvidos naquele espírito da construção do muro, que afinal iria permitir a todos ver mais longe, chegar mais além.

         Um dia quando o muro já estava muito alto, não sei, teria já aí uns 30 ou 40 metros de altura, o nosso pequeno Jonh caiu, distraiu-se, andava cansado pois trabalhava sem cessar há muito tempo, ele que conseguia facilmente subir a escarpa, mas que queria que todos pudessem partilhar o que se escondia para lá daquelas montanhas e por isso trabalhava empenhadamente em prol de todos. Mas caiu, caiu para o lado de lá, para o lado onde poucos conseguiam chegar, mas o nosso pequeno, apesar de ter partido um braço e uma perna, não desistiu e apesar de muito debilitado, lá se levantou e com todas as suas forças começou a gritar:

         -“Ajudem-me, eu caí, ajudem-me”

         Mas nada, curiosamente do outro lado começaram a surgir pedras, eram muitas e de vários tamanhos, e quando mais ele gritava por ajuda mais pedras lhe atiravam e o nosso herói Jonh só pensava “mas como era possível, do outro lado do muro só estavam os seus amigos, aqueles com quem partilhara tantos e bons momentos, aqueles para quem ele estava a construir o muro para que pudessem chegar mais alto e ver mais além.

         O nosso pequeno afastou-se então, sentou-se ali, onde as pedras já não chegavam apesar de cada vez caírem mais e com os olhos cheios de lágrimas, mas com a inteligência que sempre o caracterizara, serviu-se das suas lágrimas e na lama que produziam foi escrevendo na grande pedra onde estava agora sentado – Nunca sabemos o dia de amanhã e se hoje estamos bem e o nosso comportamento é exemplar, nunca sabemos como iremos estar amanhã, que tombo iremos dar e o que a vida nos forçará a fazer, alguns matam-se, outros enlouquecem e outros lutam, contra tudo e contra todos, até contra aqueles que sempre ajudaram e partilharam o sucesso, isto porque quando um dia as coisas infelizmente não correm bem, até aqueles que nunca imaginámos, aparecem, escondidos atrás do muro, com as mãos cheias de pedras, em vez de trazerem a mão e uma palavra de apoio e ajuda, não. Mandam pedras, que infelizmente não trazem nome…”