“As pedras não trazem nome…”

         “Há muitos anos, na idade média, vivia nos planaltos da Irlanda do Norte um grupo de nómadas, chamavam-se “Os Vencedores”, eram muitos e havia muitas crianças que livremente conquistavam dia a dia o verde das terras e o azul dos céus.

         Havia nesta “Tribo” um menino espantoso, desde sempre se destacara pela forma como corria, como saltava, como desde muito pequenino ganhava todas as sua lutas aos outros meninos, era ágil e demasiado inteligente para a sua idade.

         Naqueles campos da velha Irlanda havia um lugar lindo, mas muito alto, quase ninguém conseguia subir ao ponto mais alto, era uma escarpa íngreme, de rochedos escorregadios e para além da força era necessária uma agilidade que poucos tinham para além do pequeno Jonh.

         Um dia o nosso pequeno herói decidiu começar a acarretar pedras para junto daquela escarpa, queria construir um muro de fácil acesso para que todos pudessem subir àquele alto e ver quanta beleza estava por detrás daquela montanha, quanta vida existia para lá daquela altura e que visão deslumbrante se encontrava àquela altitude. Ele que passava a vida a contar aos outros meninos as belezas escondidas para lá daquelas rochas, ele que enchia os olhos de luz e brilho sempre que falava daquele nascer e pôr-do-sol que mais nenhum menino podia ver. Por isso mesmo começou a construir o tal muro, para que todo aquele mundo pudesse ser partilhado por todos.

         Trabalhou de dia e de noite e o seu muro, miradouro, cada vez estava mais alto, muitos meninos houve que o iam ajudando naquela nobre tarefa, de resto todos aqueles meninos eram seus amigos, todos ali haviam nascido e estavam a crescer juntos, já tinham jurado várias vezes que o futuro seria deles, cheio de vitórias e conquistas, por isso mesmo todos seriam poucos e todos estavam envolvidos naquele espírito da construção do muro, que afinal iria permitir a todos ver mais longe, chegar mais além.

         Um dia quando o muro já estava muito alto, não sei, teria já aí uns 30 ou 40 metros de altura, o nosso pequeno Jonh caiu, distraiu-se, andava cansado pois trabalhava sem cessar há muito tempo, ele que conseguia facilmente subir a escarpa, mas que queria que todos pudessem partilhar o que se escondia para lá daquelas montanhas e por isso trabalhava empenhadamente em prol de todos. Mas caiu, caiu para o lado de lá, para o lado onde poucos conseguiam chegar, mas o nosso pequeno, apesar de ter partido um braço e uma perna, não desistiu e apesar de muito debilitado, lá se levantou e com todas as suas forças começou a gritar:

         -“Ajudem-me, eu caí, ajudem-me”

         Mas nada, curiosamente do outro lado começaram a surgir pedras, eram muitas e de vários tamanhos, e quando mais ele gritava por ajuda mais pedras lhe atiravam e o nosso herói Jonh só pensava “mas como era possível, do outro lado do muro só estavam os seus amigos, aqueles com quem partilhara tantos e bons momentos, aqueles para quem ele estava a construir o muro para que pudessem chegar mais alto e ver mais além.

         O nosso pequeno afastou-se então, sentou-se ali, onde as pedras já não chegavam apesar de cada vez caírem mais e com os olhos cheios de lágrimas, mas com a inteligência que sempre o caracterizara, serviu-se das suas lágrimas e na lama que produziam foi escrevendo na grande pedra onde estava agora sentado – Nunca sabemos o dia de amanhã e se hoje estamos bem e o nosso comportamento é exemplar, nunca sabemos como iremos estar amanhã, que tombo iremos dar e o que a vida nos forçará a fazer, alguns matam-se, outros enlouquecem e outros lutam, contra tudo e contra todos, até contra aqueles que sempre ajudaram e partilharam o sucesso, isto porque quando um dia as coisas infelizmente não correm bem, até aqueles que nunca imaginámos, aparecem, escondidos atrás do muro, com as mãos cheias de pedras, em vez de trazerem a mão e uma palavra de apoio e ajuda, não. Mandam pedras, que infelizmente não trazem nome…”

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