“Mas é claro que te abraço assim…”

         “ – Abraça-me assim.

         – Assim!!! Como?

         – Assim, com aquela força dos que se amam a sério. Assim, com aquele calor dos que se gostam de verdade. Assim como já não me abraças há tantos anos. Lembraste, quando nos conhecemos? Eu, enorme. Tu, pouco ou nada eras. Eu, a viver o sonho de uma vida. Tu, no inicio de tudo. Sei que naquela altura, toda a nossa diferença de idades parecia indiferente, não importava nada, conseguia sentir todo o teu coração na palma da minha mão. Sempre que te encostava ao peito sentia um respirar profundo, de vida, de esperança.”

         Era um dia lindo, corria o mês de Outubro e o calendário encontrava a seis o dia perfeito para o nosso encontro. Há muito que ouvia a tua voz, pensas que não? É verdade. Tudo se ouvia, há coisas que se percebem logo. Conseguia saber quando estavas zangada e quando estavas feliz, às vezes davas cada gargalhada que até eu me ria contigo, é claro que tu não percebias e também não me ouvias. Outras vezes, lembro-me bem, gritavas e gritavas e dizias coisas e mais coisas, cheguei a dar-te pontapés, acalmavas-te um bocadinho, mas, lá voltavas tu ao mesmo. Recordo que havia mais vozes, não sei porquê, mas, lembro-me que quando te deitavas tudo era mais claro, parecia mesmo que estava encostado a ti, sim, bem juntinho á tua boca, ouvia tudo de uma forme tão perfeita, sei bem que muitas vezes falavas para mim e eu, claro, nem te respondia. Mas também o que poderia dizer, pouco ou nada sabia, ainda era assim como que um projecto, a desenvolver. Sabes? Há coisas que nunca se esquecem, as festas, as ternuras, os beijinhos, as carícias, e mesmo havendo aquela distância entre nós, era capaz de sentir as tuas mãos, de perceber as tuas doces palavras, tudo, mas mesmo tudo era possível perceber.

         “ – Mas porque é que só me dizes isto agora? Por te estar a pedir para me abraçares? Por te lembrar que há muito tempo não me abraças? Por te lembrar que foi em mim que tudo começou?

         – Sim mãe, por me lembrar que foi em ti que tudo começou e que será em ti que tudo um dia irá acabar e antes que seja tarde de mais, quero que saibas que tudo o que acabei de dizer é verdade. Tudo e muito mais. Ficaria aqui um dia, uma semana, um mês a dizer-te tudo e sei que tudo seria pouco. Tudo conjugado a amor, dedicação, ternura, compreensão. Tudo quanto se pode e deve dizer à única pessoa que nos sabe e quer amar sem condição. Tudo quanto se pode dizer a quem não é preciso dizer nada. Tudo a quem sempre soube e sabe tudo, mesmo aquilo que teimamos não dizer.

         Sei hoje, mais do que sempre soube, que o meu coração, hoje bem maior que o teu, ainda cabe todo na tua mão. Que a minha vida toda, a que já vivi e a que espero viver, cabe inteirinha num quarto do teu coração e que todos os meus defeitos e virtudes, sempre tiverem o tamanho certo, nem demasiado grandes, nem demasiado pequenos, na lucidez da tua aceitação. Sei hoje, infelizmente, que a tal diferença de idades que parecia não ter importância nenhuma, afinal tem toda a importância e que faz toda a diferença, é que, e se as coisa levarem o caminho e a ordem normal, tu por essa diferença de idades, hás-de partir um dia, bem mais cedo que eu, demasiado cedo mesmo, independentemente de quando partas, e eu, não sei como me irei aguentar cá sem ti, por mais que seja esperado e natural esse momento. E quero-te dizer que não precisas de me pedir mãe, porque eu, é claro que te abraço assim…”    

              

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