“O cadeirão dos ministérios””

         “Tenho mais ou menos cem anos, já nem me lembro quem me fez e com que objectivos, mas, aqui fui colocado, às vezes chegam-me mais para lá, outras mais para cá, dantes era à vassoura, com um pontapé, chega p`ra lá, com um pontapé, chega p`ra cá. Agora é de aspirador, enfiam-me aqui um tubo por baixo e uma escova por cima, suga tudo. Lixo, aranhas, miolos, cabelos, de tudo um pouco. Só não sugam, e nunca limparam a má-língua.

         Ele são novos, são velhos, altos, baixos, gordos, magricelas, bem feitos, mal feitos, pobres, remediados, ricos, ilustres ou desconhecidos.

         Uns vêm porque vêm, outros vêm de propósito.

         Há quem me utilize para fotos, para grandes acontecimentos, há quem me utilize para nada, apenas para saberem como é que se sentem aqui.

         Aqui tenho ouvido de tudo, grandes discursos, conversas bonitas, algumas sem interesse nenhum e grandes parvoíces também.

         Há quem cá venha, convencido que basta utilizar-me para se tornarem importantes, outros há, que de tão importantes, não me ligam nenhuma e acham um desprestigio perderem tempo comigo, acham mesmo que apenas sirvo para decoração e que tempo gasto comigo, é tempo perdido.

         Eu, claro, pouco posso fazer, oiço-os, alguns dão-me náuseas, outros vontade de dormir e lá aparece de vez em quando algum que me conta histórias, que me diz e lê coisas importantes, com interesse.

         Confesso que se pudesse já tinha dado grandes pontapés em alguns, vezes houve, e não foram poucas, que me apeteceu pregar com eles no chão, mas, mais coisa menos coisa, lá há quem se encarregue de os desmontar. É certo que muitas vezes é pior a emenda que o soneto, mas pronto, nada posso fazer. Cada um é para o que nasce e eu, só lamento que me tenham feito com material tão bom, o bicho não entra comigo, não apodreço nem envelheço, que chatice.

         Se pudesse ia-me embora, estou farto de tanta hipocrisia, as coisas que oiço e às vezes que cheiros tenho de suportar.

         Com o evoluir dos tempos um dia se calhar ainda vou poder falar, talvez escrever um livro, é certo que aí será o meu fim, pregam comigo numa fogueira sobre o pretexto do envelhecimento e com tantos anos alegam que estou louco, ultrapassado e que devo ter Parkinson ou coisa parecida, que a pele e a madeira de que sou feito está carcomida. Mas ainda assim não se livram de mim, vou prevalecer nos melhores álbuns e nos ali quadros da galeria a suportar o cu de todos os presidentes e ministros que se utilizaram de mim para ficar bem na fotografia…  

             

        

        

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