“Ciclos…”

               Há quem diga que a vida é feita de ciclos, ou seja, que vamos de ciclo em ciclo. Uns que se abrem outros que se fecham.

         Há ciclos maiores, ciclos mais pequenos, uns que têm a ver com as simples coisas da vida, outros mais complexos.

         Há quem diga igualmente que são esses ciclos que nos tornam mais fortes, mais conhecedores, mais capazes.

         Há igualmente quem defenda que deveríamos organizar a vida por ciclos, traçar metas e objectivos de forma redonda e quando a circunferência estivesse fechada deveríamos partir para outra.

Há quem diga, por fim, que cada ciclo deveria ficar arrumado a cada momento, e que de nada nos vale, ou deveria valer, prendermo-nos nos ciclos passados, o que passou, passou e o que importa é tocar a vida para a frente.

Eu? Não tenho todas estas certezas, muito longe disso. Por um lado sinto que ainda sou demasiado novo para ir fechando ciclos, por outro sinto que se calhar já sou demasiado velho para ainda manter alguns abertos.

Confesso que a minha vida, como a de todos, tem sido de facto feita de ciclos, o problema é que não sei que forma geométrica lhe hei-de dar. Pois, mas ciclo, subentende circunferência, é verdade, mas, então e os ciclos cheios de recantos e contra cantos? E os ciclos cheios de cruzamentos, cheios de becos sem saída? E os ciclos de vidas, que nunca se fecharam, ou fecharão pela saudade que nos deixaram? E os ciclos sinuosos, tortuosos, que por mais vezes voltem ao local de partida nunca encontram a linha de partida e já se transformaram numa espiral que cresce, cresce e que por mais que nos esforcemos não deixam de crescer ou desencontrar?

Não sei, não sei mesmo, olho para a minha vida, e não encontro ciclos assim de forma redonda, encontro-os sempre de várias formas, que por mais formas que tomem, nunca se fecham. Talvez o erro seja meu, talvez não esteja suficientemente maduro para encontrar o caminho certo para produzir ciclos correctos, talvez sejam demasiado defeituosos para se poderem definitivamente encerrar. Talvez eu ainda não consiga perceber porque não sou capaz de os fechar, quando muitos, há muito deveriam estar fechados, encerrados, trancados para sempre. Mas não, até hoje ainda não consegui fechar um único ciclo da minha vida, fica sempre qualquer ponta solta, qualquer traço que não encontra o rumo certo. Sou demasiado piegas, saudosista e transporto comigo uma apreciável dose de tristeza e solidão, se calhar é por isso, não consigo ser prático, frio e objectivo, e o curioso é que nem entendo quem assim seja, quem de forma simples passe pela vida encerrando ciclos e avançando de capitulo em capitulo fechando hermeticamente cada fase da sua vida. Eu, por mais ciclos que inicie nunca os encerro, há sempre qualquer coisa que fica por fazer, por dizer, por realizar. Mesmo na morte, não fecho ciclos, porque deixei partir muitos sem ter tempo para lhes dizer tudo aquilo que queria e muitas dessas vidas estavam muito longe do local de partida para que as pudéssemos fechar.

 

 

         Há de facto um ciclo que tenho a certeza que um dia se fechará, o da minha vida, mas esse, já cá não estarei par poder constatar como se encerrará e, ou muito me engano, torto como sou, vão-se ver muito aflitos para o fechar e mesmo que o fechem, duvido que alguma vez o encerrem de facto, é que no labirinto das nossas vidas, ficam sempre muitos recantos e lugares que só nós sabiamos que voltas dar para lá chegar…”

 

 

 

 

 

 

 

 

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