“É por isso que sonho…”

“O que é que no meu passado me leva a pensar que no futuro poderei ser um bom psicólogo?”

 

Uma questão de loucura, talvez lhe possa chamar assim.

Entra, a porta como sempre está aberta, não ligues para a desarrumação, sei que ter tudo no sítio não é o meu forte, sei que não ponho ou arrumo os livros na prateleira nem os chinelos no quarto. Sei que não varro todos os dias os miolos da minha fome nem ponho debaixo do copo do leite a base e por isso encontras muitas circunferências sobre os vidros.

Se fores á casa de banho, não te demores na toalha pendurada na torneira, nem na bisnaga com a pasta sempre aberta à espreita dos meus dentes.

Não repares nas aranhas pelos tectos porque nas teias esbarrarás com certeza e não venhas de roupa muito clara porque o pó normalmente namora as cores claras dando-lhes um tom mais acastanhado.

Talvez assim já nem entres, talvez não gostes de aranhas e não queiras sujar a blusa quase nova que vestiste para a visita.

Talvez te desiluda na entrada e os teus olhos te castiguem de lágrimas nos impulsos do teu coração.

Se for só por estas pequenas coisas, não entres. Se for só por isso, então não entres mesmo, porque apenas quero e espero quem esteja na disposição de me ver limpo por dentro, para me cheirar as ideias, para deixar correr o rio das minhas veias, vermelhas, fartas, inchadas de tanta correria à procura da foz, que nunca conseguiu encontrar.

Se vieres para perguntar, gritar, revoltar, então vem. Entra, esta também é a tua casa.

Estou farto da arrumação da vida, das prateleiras limpas e ordenadas, despidas de ideias e sentimentos, estou farto de sofás engalanados de almofadas, impecáveis, como novos, iníquos, completamente vazios de ternuras e carinhos, – Assentos de gentes desconfortáveis de espírito.

Estou farto desta ideia de perfeita loucura, dos badamecos importantes, de se ser convencional, politicamente correcto, numa liberdade condicionadamente condicionada.

Estou farto de não poder dizer o que sinto, o que sofro, o que choro, o que me irrita e revolta.

Estou farto de não poder gritar a felicidade, a alegria a grandeza das coisas pequenas, não. Isso não me deixam.

 Prefiro o pó que não pede a ninguém para se instalar, que tapa, cobre todos e cada recanto, que se sujeita às impressões de quem ousa deformá-lo, prefiro as teias de livres aranhas na busca das distraídas refeições, prefiro os miolos, as rodelas do seco leite que marcam a minha passagem por ali. Prefiro tudo, mesmo tudo o me torne vivo e pensante, útil e necessário, por isso deixo sempre a toalha sobre a torneira, que obrigatoriamente tenho que desviar para fazer correr o líquido da pureza.

É por tudo isto que sonho ser psicólogo, pelo desencanto do ontem, pela arrumação na desarrumação dos homens, pelo convencional erro das mentes e ideias que jamais consegui perceber. Por tudo o que passei e encontrei, pela luta que travo em cada dia no entendimento comportamental dos que me rodeiam e por fim, pela perspectiva quase inacessível de entender o comportamento dos que se julgam correctos, deslumbrantemente loucos e pelos imperfeitos, loucamente correctos.

 

 

 

                                          José Gonçalez – Aluno 15607

Psicologia do Desenvolvimento – U. Évora . 30.08.09

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