“Amanhã, pode ser tarde de mais…”

         “Eram três da manhã, esperava-a como sempre a esperei, parei no mesmo sítio, acendi o mesmo cigarro e esperei que o tempo me a trouxesse.

         Eram cinco da manhã, e nada. Não chegava, não havia sequer qualquer sinal de que estivesse próxima ou a chegar.

         Talvez eu até já tivesse adormecido um pouco e ela até já tivesse passado e eu não a tenha visto.

         Ou então, talvez ele não tivesse ido e por isso ainda não tinha passado.

         Estas eram as respostas que encontrava em mim para o anseio de não a ver passar, de resto esperei que o dia corresse depressa, mesmo muito depressa e que a noite esgotasse rapidamente aquelas primeiras horas para lá voltar e perceber que ontem alguma coisa tinha acontecido, sem importância, e que ela lá estava, lá continuava a estar. Mas não, hoje também não passou. Se calhar mudou de área?

         Foi assim ao longo de quase três semanas, até que decidi deixar de a ir ver passar. Eu, que sempre me deitava tarde e acordava tarde, naquele dia decidi levantar-me cedo, fui ao café da frente, se vissem a cara de espanto dos habituais frequentadores do café, eu, ali, àquela hora. Pedi um café e um queque ou lá o que era aquilo, estava o jornal naquela mesa e eu, que nunca via jornais, abri aquele e para meu espanto não é que ela estava lá, nas centrais, de vermelho vestida, com grande destaque e por cima, em grandes letras pretas, este titulo “Encontrada esfaqueada, no jardim do paço, a morte terá ocorrido há mais de uma semana, atendendo ao estado em que o corpo já de encontrava”. Sai do café sem dizer uma palavra.

         Foi há muitos anos, um dia, ás voltas com a vida, fui dar uma volta, encontrei na rua uma mulher interessantíssima, acercou-se de mim, com aquele ar de quem sabe o que quer e onde quer chegar, disse-me que uma noite consigo valia bem uns 15 contos dos antigos, mandei-a entrar, conversamos longamente, entreguei-lhe no fim da conversa os mesmos 15 contos, não queria que o tempo que me deu lhe retirasse, “o lucro” que outro cliente lhe daria.

         Desde esse dia que passei a ir ter com ela, julgo que era sempre o seu primeiro cliente, não para uns momentos de sexo, não. Apenas para uns momentos de conversa, sempre lhe entreguei os 15 contos e sempre acreditei que um dia, com toda a minha psicologia, a conseguiria demover, mas não.

         Perdi antes todas as oportunidades de a salvar, perdi sempre durante todas as conversas a coragem que devia ter para lhe dizer quem era e porque estava ali.

         Hoje é tarde, e talvez áquele titulo bem grande e central do jornal diário só falte mesmo acrescentar: “Morreu sem conhecer os pais e fruto da cobardia e acomodamento, daqueles que lhe deveriam ter indicado outro caminho e concedido outras oportunidades”

         As palavras de hoje, nada me valem e o adiamento do assumir as minhas responsabilidades de pai valem-me uma filha morta. Aquilo que deixarmos de fazer e dizer hoje pode ser demasiado tarde amanhã e depois de nada vale o ressentimento ou o arrependimento, na vida só nos devemos arrepender do que não dissermos ou fizermos, tudo o resto faz parte do processo sempre inacabado e inesgotavel a que chamamos viver…”

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