Religião versus folclore…

         Talvez o título possa parecer estranho, talvez demasiado forte, talvez sem sentido, mas para mim não.

         Sou assumidamente cristão, católico, e, confesso, tenho alguma pena de muitas vezes não ser mais praticante quanto o desejável e quanto desejava. Tive alguns momentos na minha vida que em vez de me retirarem fé ou de provocarem alguma vacilação, pelo contrario me fortaleceram e me tornaram num homem mais crente, refiro-me em concreto à morte de meu Pai, do meu irmão Paulo e de algumas coisas que alguns foram inventando a meu respeito e que muito me magoaram, mas também sei que quem se expõe como eu, está sujeito a isso mesmo, pena que o façam sempre sob a capa do anonimato e da hipocrisia, mas pronto.

         Sou então católico e tenho tido o privilégio de privar com homens interessantíssimos, como arcebispos e outros de grande visibilidade religiosa como o padre Vítor Melicias ou Frei Hermano da Câmara. Mas isto por si só não diz muito, pelo menos a mim não me diz muito, acredito na fé posta ao serviço dos outros e apenas isso, não acredito na fé como meio de promoção social, como veiculo da obtenção de favores ou suporte para a obtenção de estatuto. Não a isso tudo chamo hipocrisia e, infelizmente, cada vez encontro mais o que de negativo têm as religiões, e que atrás referi, nas manifestações pública dos actos religiosos. Passo a explicar, vou várias vezes à missa das seis, não vou muito à de domingo por força das horas tardias a que me deito nos sábados, por força das minhas actividades musicais, e vou habitualmente à missa do galo. Assisto igualmente na televisão a diversas eucaristias e celebrações religiosas.

Vamos lá ao que interessa, pelo menos segundo o meu ponto de vista. Luta-se hoje para que os fieis não abandonem as igrejas, embora como sabemos a igreja sejamos nós e não o edifício de pedra, muitas vezes de construções grandiosas e de grande valor artístico, mas dizia eu que, tenta a igreja a todo o custo manter-se viva, forte e com mais intervenientes, tenta igualmente ter um papel mais activo, mais forte, mais actuante, serve como bom exemplo a ultima mensagem do Cardeal Patriarca de Lisboa nos apelo ao entendimento na educação em Portugal que, pelos vistos, só já lá vai com a ajuda divina. Tudo isto para dizer que, mesmo dentro deste princípio e necessidade, deverá haver limites. Não entendo como podemos estar numa celebração e se batam palmas por tudo e por nada, como se estivéssemos a assistir a um qualquer espectáculo, é para quem canta, para quem dança, para quem lê, para quem escreve os textos, para quem transporta a cruz, para quem isto, para quem aquilo… e isto, quanto a mim não leva a nada, corre-se o risco de aqueles que lá vão a primeira vez, ou que não estejam ainda enraizados na fé e firmes nas suas ideias e opções, se vão embora de vez. Eu, se entrasse pela primeira vez numa igreja, à procura de palavras de conforto, de respostas ás minhas dúvidas, acreditando que Deus me ouviria e ajudaria, com as suas palavras e ensinamentos e visse projecções e karaokes e mais modernices que a nada levam, nunca mais lá punha os pés.

Perguntar-me-ão se entendo que é com um discurso obsoleto e a cheirar a mofo que a religião sobreviverá e que atrairá mais fiéis? Não, claro que não, mas não é com folclores que lá iremos. Entendo que, como em muitas outras áreas, o desenvolvimento se faz à custa da evolução, da modernização e naturalmente é muito importante que a igreja acompanhe estes novos tempos, sob o risco de se deixar ficar numa ilha, mas pode e deve fazê-lo, e bem, com intervenções como a do Cardeal Patriarca de Lisboa, actualizando discursos, acompanhando os novos temas e ritmos, mas nunca desvirtuando o principio, Jesus, não vestia armaduras, nem punha penachos na cabeça, não fazia o pino nem dançava o vira. Deus, mandou-nos o seu filho só com uma tunica, e coloco-o quase nu na cruz e a verdade é que ainda hoje falamos dele e o lembramos, não pelas suas vestes, mas pelas suas palavras e acções. Hoje não estaria aqui a tirar o meu chapéu ao Sr. cardeal Patriarca de Lisboa se ele tivesse aparecido de saias de folhos e de lenço na cabeça, chamaria muito mais a atenção, é certo, mas perder-se-ia o essencial, a sua mensagem e os objectivos a que se propunha. Por isso defendo modernidade, actualização do discurso, novos ritmos, mas jamais acharei piada, ainda que isso à primeira vista possa parecer mais motivador, de chegar a uma igreja e ver actuar o rancho folclórico de Nossa Senhora do perpétuo socorro…  

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1 Comentário

  1. Concordo plenamente consigo Zé. Já temos tanto cá fora, que eu penso que na Igreja deve haver realmente muito recolhimento e concentração.Ainda temos cânticos maravilhosos, não precisamos coisas folcloricas …


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