“Que Deus nos perdoe, Amália…”

         Na sexta-feira fui ao cinema, já andava para ir à mais tempo, já era para ter ido em Dezembro quando o filme saiu, mas só agora me foi possível.

         Fui ver o “Amália”, em primeiro lugar fiquei, de facto, muito bem impressionado com a qualidade dos actores portugueses, da fotografia, das filmagens, gostei mesmo muito, muito bem.

         Quem me dera que o filme tivesse ficado pelas representações e imagens, quem me dera. “Que povo é este, que povo?”

         Amália Rodrigues, apenas e só a maior referência de Portugal, de todos os tempos, é de música que estamos a falar, certo? Brilhante, com condecorações e mais condecorações, prémios, referencias em todas as revistas e jornais especializadas em musica, e não só. Considerada uma das dez melhores vozes do mundo, a par de Piaf, Maria Callas, Mercury entre outros.

         Amália Rodrigues, Fadista, Actriz, única e inesgotável. Passados todos estes anos, recordo que morreu no dia dos meus 30 anos, 6 de Outubro de 1999, e ainda enche salas, são Coliseus, Campos Pequenos, teatros, cinemas, enfim de tudo um pouco por todo o país, e não só. Tudo o que se faça à sua sombra, é sucesso garantido.

         Vamos ao que interessa, Amália, quero hoje pedir-te perdão pela vergonha do filme que te fizeram. De cigarro em cigarro, de bebida em bebida, de cama em cama, ai Amália, o que te fizeram, seria mais simples chamarem-te puta, ordinária, bêbeda e outras coisas mais. Como é possível? Reduzir-te a tudo o que de mais triste existe. Uma vida de merda, de copos, homens e tentativas de suicídios. Aquela imagem, verdadeiramente travestiana, dos teus dias em New York!!!

Enfim, como é possível? Que memória temos? O que ganhamos com isto? Tornar um dos ícones da historia Portuguesa, que tanto e tão bem levou o nosso nome aos quatros cantos do mundo, numa figura degradante e devassa é no mínimo, “VERGONHOSO”.

         Amália, que estranha forma de vida, a tua, tu, nesses versos de abandono, na mais fria claridade, que no voo de uma gaivota, com que voz, lavas com tanta pureza, esse teu povo do rio, e através do vento que passa, vestes de calor o frio desta casa Portuguesa.

         Tu, Amália, que negro barco é o teu? Na mágoa de quem é nobre, da libertação ao cansaço, nos dizes em cada nota, não é desgraça ser pobre.

         Amália, nosso fado Português, meu amor, meu amor, sabe-se lá porque te despem desta vez. 

         Amália, Dá-me o braço, anda daí, neste fado do ciúme, aqui onde o amor é lume, aqui neste mar aflito, vou pôr na voz um grito e maldizer quem te magoe.    

         Amália, hoje, vou dar de beber à dor, na esperança que Deus nos perdoe…      

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2 comentários

  1. Parece me surreal imaginar estes ícones como pessoas santas, não sou grande apreciador de fado, mas consigo reconhecer Amália como um símbolo nacional.
    Quantas não são as figuras internacionais com milhões de fãs que levam estilos de vida muito mais condenáveis que a Amália levou?. Há quem diga que o verdadeiro génio vem da vivência e sofrimento dos artistas, e penso que não será isso que lhe dá mais ou menos valor.
    E digamos que também ninguém queria ver um filme sem história, porque sejamos justos, a personagem não teria graça se fosse retratada como uma santa. As pessoas gostam de ver personagens onde se podem retratar, pessoas reais…. que afinal é o que ela era.
    A lenda não morre por isso.

  2. Começo por agradecer a visita e o comentário. Não discordo de nada do que aqui diz, até porque Amália não foi, e bem mais importante que isso, nunca quis ser Santa. foi uma comum mortal, cheia de talento. O problema é que, em minha opinião, não podemos, nem devemos, tratar mal aqueles e aquelas que apenas valorizaram e valorizam o nosso país, apenas porque também são normais e em muitas coisas iguais a todos nós. Já escrevi sobre o Cristiano Ronaldo, onde utilizo o mesmo principio. Defenderei Amália até ao fim das minha forças, não só por gostar de fado, mas por achar que já somos tão pequeninos e se ainda destruimos o que de melhor temos e tivemos, então, não valemos nada. A lenda, de facto, não morrerá, porque tal como eu, há muitos, muitos que abandonaram a sala por exemplo no dia da estreia, que jamais se calarão perante tal injustiça. Amália humana e igual a nós? Sim. Amália devassa, nunca. Amália neste filme só tem defeitos e podridão. Já escrevi noutro blog e volto a repetir agora, Filipe Lá féria, deu-lhe os mesmos amantes, os mesmos cigarros, mas fê-lo com elevação, com a elevação com que ela merece ser recordada. Às vezes não são as histórias, são as palavras e a forma. Recordo caro amigo, que tanto o Musical, como agora o Filme, foram suportados na biografia autorizada, de Vitor pavão dos Santos, livro ditado pela própria, onde nada escondeu, sem medos. Amália foi e será sempre uma referência, não pelo seu lado humano e normal, não. Será sempre uma referencia pela genialidade, pelo talento e sobre tudo por ser diferente. E essa diferença, meus amigos, daria excelentes filmes sem a denegrir ou achincalhar. Putas, bêbedas e davassas é o que há mais, artistas da sua dimensão, são raras, e deveremos preservar a sua memória, com dignidade e respeito.
    Fexho assim:
    – “há dias um casal de turistas Chinense, que sempre acompanhou Amália nos seus espectáculos, deslocou-se propositadamente a Portugal para ver o filme “Amália”. A meio, abandonou a sala, em pranto e com estas palavras nos lábios. -“Quem vier ver este filme, com que imagem ficará desta senhora? Porque a tratam assim? Que mal lhes fez ela?”
    Eu, não mais direi…


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