“No fiel da balança…”

          “Quem me dera ser poeta, poder escrever coisas bonitas, daquelas que todos lêem e entendem, daquelas simples, sem rebuscados intelectualismos, poder dizer apenas que, uma flor é uma flor, que um pássaro, é um pássaro e, não encontrar explicações, porque motivo voa, não. Apenas poder dizer que tem penas e o céu, e que por isso mesmo voa. Que sabe utilizar o vento e a aerodinâmica.

          Eu queria encontrar palavras para tudo o que não entendo. Não justificações, que essas são chatas de mais e, cada um, é sempre livre de encontrar a sua. Eu queria coisas simples, daquelas que apenas pelas palavras se entendem, sem metáforas ou entrelinhas.

          Gostaria um dia de poder dizer, sem voltas nem voltinhas, que amo, que choro, que sofro, que riu, que vivo, apenas isso que vivo. Estar vivo não é andar por cá. Não. Estar vivo é participar, é pensar e dizer, é contribuir. Estar vivo é poder fazer da vida um acto de coragem e verdade. Gostaria de poder sair à rua e poder encontrar na mão que aperto a cada esquina, uma só verdade, sem saber de quem é, de onde vem e para onde vai. Saber apenas que aquela é uma mão igual à minha, que leva ao mesmo tronco, a mesma força, que tem o mesmo sangue, que corre do mesmo coração.

          Um dia gostaria de estar com Deus, não para lhe perguntar nada de especial, nem querer saber daquelas coisas que nos inquietam a cada dia, queria apenas vê-lo, olha-lo. Queria apenas perceber o que nos separa, onde está a diferença e porque nos perdemos.

          Um dia, mesmo que seja tarde, tenho a esperança, de poder estar comigo, para além de tudo e de todos, abraçar-me, beijar-me e poder dizer-me finalmente, finalmente encontrei-me, depois de tudo o que disse e fiz, depois de todos os erros e disparates, depois de todos os falhanços e derrotas. Que bom seria, era sinal que o somatório dos meus disparates me tinha levado a algum lado, mais que não fosse ao final entendimento da verdade que nunca entendi e das mentiras a que me entreguei.

          Um dia, no fim de tudo, quando já ninguém me vir, nem ouvir, quero fechar a porta dos meus dias apenas com uma certeza. Encontrar na balança o certo e o errado, e que o fiel não penda para nenhum dos lados. Levo meia-vida vivida e sei que estou muito desequilibrado, mas mais vale tentar do que acreditar que este desequilíbrio é irreversível.

          Não estou, nem sou perfeito, mas não há maior imperfeição do que olhar para a nossa sombra, que se revela distorcida, e pensar que é o sol ou o terreno que não permitem uma imagem mais definida e perfeita…”

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1 Comentário

  1. Um bom texto para uma excelente reflexão.

    Parabéns pelo espectáculo infra.
    Continuação de bom trabalho pleno de realizações pessoais e profissionais.

    Há um selo “Este Blog é Fecundo” que está na minha salinha, podes levantar… é um mimo de Páscoa para pessoas especiais que trabalham em prol da Fecundidade…

    Um abraço para Estremoz… estou quase a caminho…
    Santa Páscoa!


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