“Baralho de Cartas…”

            Não sei que tempos são estes e até onde nos levarão. Há novas tecnologias, novas “Auto-estradas” informáticas, novos pensadores e pensamentos. Há indiscutivelmente uma humanidade mais próxima, mas não confundamos proximidade, física, espacial, com proximidade humana, de coração.

            No momento em que vos escrevo, invade-me uma sensação de angústia e vazio. Angustia por sentir que tudo hoje é normal e vulgar. Vazio, por não encontrar em mim, ou fora de mim, o sustento alimentador e impulsionador para a realização dos sonhos.

            Há momentos na vida em que paramos e, olhando para trás, não percebemos bem se tudo o que fizemos, valeu a pena. Há momentos em que por mais que tentemos não nos revemos no percurso realizado. Revoltamo-nos, interrogamo-nos, mas não encontramos respostas ou explicações.

            Nunca percebi bem, e bem me tenho esforçado algumas vezes, porque as coisas não correm como imaginado, porque quantas vezes quando nos parece que a felicidade está ali tão perto, tudo nos foge por entre os dedos, que por mais que apertemos, ou tentemos travar, mais rapidamente tudo nos foge.

            Tenho ao longo do meu tempo, feito várias abordagens introspectivas, e se por vezes até encontro algumas respostas, na maioria das vezes não entendo. Não entendo porque falho, não entendo porque não me compreendem, não entendo porque não compreendo, não entendo porque aquilo que, à primeira vista me parece tão simples e fácil, se torna depois tão complicado e difícil.

            Ontem, atentamente, estive a ouvir os nossos políticos em mais um debate, de coisa nenhuma, senti-me como membro de um baralho de cartas, e mesmo só isso, uma carta qualquer, daquelas que não vale nada. Senti que nos baralham, voltam a baralhar, que nos dão e voltam a dar, de mão em mão, senti que nos utilizam consoante a estratégia ou o trunfo. Vivemos num mundo medíocre, onde por imposição se exigem meter Damas no meio de Valetes e Reis. Onde se é Joker consoante corre o jogo, onde os sinais se fazem à esquerda ou à direita consoante o jogo do adversário. E o que mais me irrita, é que acho que não nasci para ser carta, pelo menos destas, deste baralho, já tão sujo e marcado. Ao menos que nos deixassem escolher que carta queríamos ser, ao menos que nos permitissem escolher a mão onde cair, ao menos que não nos atirassem ou guardassem em função da cor, mas sim em função do que valemos realmente. Metem-nos no baralho, muitas vezes à força e indiscriminadamente, fazem de nós ternos ou Valetes, conforme os seus interesses.  

            Hoje, tal como no baralho das cartas, a vida está cheia de duques e ternos com aspirações a ases, e o mais grave, é que muitos chegam lá sem nunca terem sido noves ou dez. A vida está cheia de cartas que se mascaram e se pintam em função do trunfo e dos seus objectivos.

            Hoje, tal como nos baralhos de cartas, as Damas, Valetes e Reis, já não valem pelo valor intrínseco, valem pelas movimentações dos duques, ternos e quadras.

            Hoje, é este o mundo que temos, é nele que temos que viver. Espero que consigamos, pelo menos, deixar um baralho novo e limpo, à disposição dos que estão para vir.

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“A Ipsis Verbis…”

A Ipsis Verbis…? Agradeço a simpatia ao meu colega e amigo José Lameiras, mas como não ligo, nem acho que tenha qualquer relevancia este tipo de coisas nos blogues, da minha parte não darei continuidade.