“À deriva…”

         Desenhei uma janela, ali naquela parede, naquela que não existe, naquela que está para lá de mim, de onde estou e onde quero chegar.

         Desenhei também um Girassol e um Pintassilgo que se vêem para lá da janela que não existe.

         Há um mar de fundo e dois barcos à vela a baloiçar sobre as ondas.

         Desenhei um casal de namorados, que aproveita o vento e deixa que o mar lhes molhe os pés. Rodam à procura do sol e dançam ao som do pintassilgo. Rebolam-se sobre a areia e deixam que o mar os acalme, na espuma que vai arrefecendo tanto amor.

         Há ao longe, muito ao longe, assim como quase uma visão ténue de horizonte, duas gaivotas que bailam, quase se ouve uma suave melodia, quase, se nos calarmos, fica distante, mas está lá. Está lá como já estivemos nós.

         Há tudo nesta parede, nesta janela, neste mar, neste amor. Há tudo menos nós. Está lá tudo, mas não consigo ver. Afinal a parede existe, a janela é que não. Nem Pintassilgos ou Girassóis, nem mar, nem espuma nem gaivotas. Não há namorados, não há nada. Só há a parede e os dois barcos, à deriva, para lá da parede, sem horizonte!

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