“Em Estremoz, 40 anos depois…”

            É verdade, 40 anos depois, e não deixa de ser interessante, porque aqui, nesta cadeira e a esta secretária, estou a menos de cinco metros, do local onde minha mãe gritou, a mais bonita dor que alguém pode gritar, o parir de um filho.

            Dedico por inteiro, estas palavras de hoje, à minha família, aos meus amigos, mas sobretudo a minha mãe. Sei que para todos nós, as nossas mães serão sempre as melhores, as mais perfeitas, as mais capazes. Sei igualmente que não há, de facto, melhor que as nossas mães, as que tudo percebem e sabem, mas com a sabedoria de quem ama sem condição, da mesma forma tudo fingem não entender e sobretudo tudo perdoam, mesmo que em ferida por dentro, jamais negarão o amor a seus filhos.

            Nasci a 6 de Outubro de 1969, sou o quarto filho, o mais novo de um casamento feliz, pelo menos sempre assim o vi, mas muito curto. O meu pai faleceu apenas com 47 anos, tinha eu 12 e todos os meus irmãos eram menores. A minha mãe, com uma força inexplicável, agarrou-se á vida, e criou a pulso, sozinha, quatro filhos. Recordo sempre uma expressão que ouvi no dia da morte do meu pai, quando alguém dizia a minha mãe, para ter muito cuidado, porque os filhos das viúvas eram todos uns vádios. Não sei o que me consideram hoje, mas sei claramente que a minha mãe, se entregou de corpo e alma à melhor criação dos seus filhos. Não tivemos nada de especial, não. Mas tivemos sempre amor, e muito, de uma mulher única. Tivemos quem à noite, deixasse debaixo da porta, ao longo de vários anos, um envelope com algum dinheiro, nunca até hoje soubemos que o fazia. Tivemos natais e festas, só com um jantarito reforçado, e um par de meias por prenda. Mas teve sempre a minha mãe, o mais profundo carinho e afecto para nos pôr na mesa, na cama, nos braços.

            Cresci, sem nada e com tudo, mas garanto-vos que éramos felizes. Cantávamos noites inteiras, a minha mãe cantava lindamente, fado claro, eu e o Paulo sempre tivemos essa queda especial para a música.

            Para a minha mãe sempre foram fundamentais, os estudos, a leitura o trabalho, a dedicação e a educação e respeito pelos outros. Começámos todos a trabalhar muito cedo, assim todos ajudávamos, fui ajudante de serralheiro, ajudante de balcão, empregado de um vídeo clube, estive nos armazéns da câmara municipal, fui administrativo, auxiliar de cultura e desporto e relações públicas… tudo, num processo que me fez o homem que sou hoje, nunca deixei de estudar e tenho um curso por completar, quem sabe talvez um dia…acabei por me dedicar de corpo e alma à rádio, à música, à escrita, à produção, à televisão, de tudo um pouco dentro desta área.

            Sou o fruto de um amor entre uma mulher enorme e de um homem que não conheci bem, partiu demasiado novo e eu, era demasiado pequeno. Sei que estou muito longe de ser o que minha mãe imaginou, mas espero não a ter desiludido muitas vezes, que a vida, essa, tenho a certeza, desiludiu-a por completo. Se não bastasse a morte de meu pai, veio também a doença da minha irmã, a morte do meu irmão Paulo, e tudo o que eu tenho sido, o que me têm chamado e acusado tantas vezes. É por tudo isto que lhe dedico hoje estas palavras, sei que jamais as lerá, não percebe nada de computadores e eu também nunca lhe irei dizer que o fiz. Hoje, quando a vejo agarrada àquela bengala, que lhe permite ainda dar alguns passos, penso para mim, que mulher extraordinária, que sofreu quase tudo na vida, como lutou contra tudo e como resistiu e resiste. Lamento profundamente, o facto de também eu ter contribuído para lhe carregar os dias, resta-me uma certeza que sempre me preencheu, sei que falhei e que falho, sei que estarei muito longe de ser o filho que sempre sonhou, mas jamais lhe negarei o meu amor, a minha entrega e sobretudo o meu mais profundo reconhecimento. Eu não teria suportado tanto. Muito obrigado mãe.

“Minha mãe sinto que é hora

De agradecer-te e agora

Aqui estou na tua frente

Sem piegas intenções

Somos só dois corações

A dizer, amor presente!”

Anúncios

6 comentários

  1. Muitos Parabéns, que daqui a 40 anos cá estejamos todos a celebrar mais um aniversário. 🙂
    Abraço

  2. Beijinhos de parabens . um bomdia

  3. muitos parabens migo e k ssejas sempre assim…bjsss ‘e verdade trata bem dos caezinhos!!!

  4. Parabéns, queria dizer mais mas não consigo, fiquei emocionada com as tuas palavras.
    Sempre acreditei no teu talento e continu-o acreditar, cada vez mais me surprendes pela positiva. resta-me dejejar-te toda a felicidade do mundo, que todos os teos sonhos se realizem.
    Beijinhos

  5. Um grande abraço de PARABENS.
    Vê se pagas um copo!

  6. Parabens amigo
    Um abraço Jose Marcelino (Cano)


Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s