“No Devoluto Luto Que É A Vida”

Às vezes chamo a lua prós meus dias

Quando o sol, ainda a pique me castiga

E entrego-m` em tristeza às alegrias

Nos versos mais felizes da cantiga

 

Às vezes deixo a alma entregue ao nada

No nada que consome a fraca esperança

E deixo em cada noite a madrugada

Dos dias que são noite, ainda criança

 

Às vezes choro lágrimas de luto

No rubro entardecer da despedida,

E deixo o pensamento devoluto

No devoluto luto – que é a vida!

 

Às vezes somo todos os momentos

Da lúcida loucura embriagada

E bebo no meu cálice os tormentos

Uva amarga, no Gral amordaçada

 

Às vezes fecho todas as janelas

Cerro cortinas, amarro a escuridão

Dou aos pincéis tenebrosas aguarelas

E mergulho na revolta que me dão!

 

Às vezes sou mesmo eu que s` insinua

Nos matizes negros das palavras

Às vezes compro, e vendo a alma nua

Onde tu, meu ser maior, os sonhos lavras

 

Às vezes porque me afastei de ti

E deixei livros abertos sobre a mesa

Arrisco na fogueira o que escrevi

Na chama, feito azinho, sempre acesa

 

Às vezes ponho planos nas sentidas,

Magoas, que ao perdão pedem guarida.

Às vezes são as vidas já perdidas,

Que um, dia dão guarida à própria vida!

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